Título: Pochmann deve assumir Ipea na próxima semana
Autor: Durão, Vera Saavedra
Fonte: Valor Econômico, 10/08/2007, Brasil, p. A4

O economista Marcio Pochmann, professor do Instituto de Economia da Unicamp, deve ser empossado na próxima semana como presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), hoje sob a batuta da Secretaria de Estratégias de Longo Prazo, pilotada pelo economista Mangabeira Unger. O nome de Pochmann foi sugerido pelo próprio titular da Secretaria à cúpula do Partido Republicano Brasileiro (PRB), do vice-presidente José de Alencar, ao qual Mangabeira pertence, e foi acatado por unanimidade.

Esta é a primeira indicação de peso, no âmbito de sua secretaria, feita por Mangabeira Unger. A escolha se destaca por ter sido isenta de critérios políticos e fisiológicos. Pochmann é um quadro acadêmico reconhecido pela intelectualidade progressista mais à esquerda por seus vínculos com o pensamento desenvolvimentista. Durante o mandato de Marta Suplicy na prefeitura de São Paulo, Pochmann ocupou a Secretaria de Trabalho, Desenvolvimento e Solidariedade, que respondia pelos programas de inclusão social e geração de emprego e renda, especialmente para a população menos qualificada. Mangabeira Unger já o conhecia por pesquisas e livros.

O fato sugere uma sintonia fina do ex-professor de Harvard com a equipe econômica na busca de ampliar espaço no governo para economistas que pensem estratégias de desenvolvimento para o Brasil, como vem acontecendo neste segundo mandato do presidente Lula. Ao contrário do primeiro, onde predominava o pensamento econômico ortodoxo de curto prazo, esta escola vem perdendo progressivamente presença na área econômica.

Guido Mantega, por exemplo, Ministro da Fazenda, tem origem Unicamp, a mesma de Luciano Coutinho, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Nelson Barbosa, assessor de Mantega e Antonio Alves Jr., economista da Casa Civil, são vinculados à UFRJ. Alves Jr. foi orientando de Fernando Cardim. Paulo Nogueira Batista foi indicado por Mantega para representar o país junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

Os ortodoxos continuam representados no Banco Central e em outros postos no governo, sendo alguns poucos no Ipea. A história acadêmica de Mangabeira Unger e Pochmann, porém, apontam para mudanças significativas na instituição ainda não confirmadas. Mangabeira Unger, que recebeu autonomia do presidente Lula para atuar na sua secretaria, deve garantir o mesmo aos novos dirigentes e pesquisadores do Ipea.

No novo Ipea são esperadas mudanças na diretoria. Uma das áreas que deve ser atingida é a de macroeconomia, pois quem hoje a comanda - Paulo Levy e seu assessor mais direto, Fábio Giambiagi - se alinham a uma escola econômica diferente do pensamento desenvolvimentista de Pochmann. Esta troca de guarda será certamente a maior novidade do novo Ipea, arriscam economistas consultados.

A diretoria de Estudos Macroeconômicos produz, trimestralmente, análises de conjuntura, com projeções para a economia de curto e médio prazos. Ao longo pro primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, o Ipea chegou a divulgar projeções econômicas mais conservadoras que as da equipe econômica. Às vezes acertou, às vezes errou.

No plano das idéias, o projeto de Pochmann será provavelmente voltado para retomar o papel fundamental do órgão público, que é de dar assessoria ao governo, pensando estratégias de desenvolvimento para o Brasil e voltando suas pesquisas e estudos para diversas áreas: macroeconomia, saúde, educação, área social, meio ambiente e Previdência. O órgão tem mais de 500 funcionários, dos quais muitos cedidos a órgão públicos.

Gaúcho, Pochmann é formado em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e fez doutorado na Unicamp, onde se especializou em economia do trabalho e sindicalismo. Atualmente, além de professor, é pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit).