Título: Gtech briga para tentar manter o fornecimento
Autor: João Luiz Rosa e Talita Moreira
Fonte: Valor Econômico, 21/01/2005, Empresas &, p. B3

À primeira vista, as licitações da Caixa Econômica Federal (CEF) parecem o fim do relacionamento tumultuado mantido com a americana Gtech, que desde 1997 fornece todos os serviços para a rede de loterias da instituição, os mesmos que agora são alvo de quatro editais diferentes. Se depender da multinacional, no entanto, o contato vai continuar. A Gtech participará de todos os leilões da CEF. "Como somos os atuais fornecedores, temos as condições técnicas e econômicas de participar das quatro licitações, independentemente do valor de cada uma delas", diz Robert Vincent, vice-presidente mundial de assuntos corporativos, em entrevista ao Valor, por telefone, dos Estados Unidos. Além disso, a CEF já teria se manifestado sobre a possibilidade de prorrogar o contrato com a Gtech, que se encerra em 15 de maio, para dar tempo necessário à transição para o novo modelo, afirma Vincent. Procurada pelo Valor, a Caixa preferiu não fazer comentários sobre as licitações, ontem. As dificuldades de relacionamento entre a Gtech e a CEF tornaram-se públicas no ano 2000, quando a empresa entrou na Justiça para impedir que a Caixa lançasse uma nova modalidade de licitações, sob o argumento de que o modelo proposto - que também previa a divisão dos negócios em várias partes - tornava inviável sua participação na concorrência. Inicialmente, a decisão judicial foi favorável à Gtech, que ganhou uma liminar impedindo a Caixa de realizar a concorrência. Em agosto de 2004, porém, uma decisão em instância superior liberou a CEF. Nesse meio tempo, porém, a Caixa prorrogou o contrato com a Gtech por duas vezes. Segundo afirmações dos dirigentes da instituição, feitas no ano passado, a prorrogação dos contratos foi a maneira encontrada para não interromper os serviços. No início do ano passado, o relacionamento da Gtech com a CEF apareceu como pano de fundo do escândalo envolvendo Waldomiro Diniz, ex-chefe de assuntos parlamentares da Casa Civil. Na época, tanto a CEF como a Gtech negaram o envolvimento no caso. Agora, apesar da mudança nas regras da licitação, a Gtech pretende participar aos contratos. Segundo Vincent, a diferença é que, em 2000, a proposta da CEF previa a divisão dos serviços não só por tipos de atividade, como agora, mas também por regiões geográficas. O fornecimento dos serviços de telecomunicações por exemplo, passaria a ser feito por várias empresas em diferentes regiões do país. "Essa fragmentação não permitia ganhos de escala", diz o executivo. "O modelo atual é diferente." Não há nenhuma pendência judicial entre a Caixa e a Gtech, mas a companhia enfrenta na Justiça o Ministério Público, informa Fernando Cardoso, presidente da Gtech no Brasil. Segundo o executivo, com base em um relatório preliminar do Tribunal de Contas da União, o Ministério Público entrou com uma medida cautelar preventiva e solicitou que os ativos da companhia no Brasil, assim como 30% de seu faturamento no país, fossem bloqueados. Atualmente, mais de R$ 70 milhões estão bloqueados, diz o executivo. O argumento usado pelo Ministério Público, diz Cardoso, era o de que a Gtech fez aumentos que não estavam de acordo com os contratos, o que teria onerado a Caixa em R$ 92 milhões. Posteriormente, outro relatório teria corrigido o número para R$ 30 milhões. A Gtech nega que tenha causado prejuízo à Caixa. O Brasil tem um papel estratégico para a Gtech. O país representa 9% do faturamento global da companhia, de mais de US$ 1 bilhão. (JLR)