Título: BC insiste em queda rápida da inflação
Autor: Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 25/01/2005, Brasil, p. A5
O Banco Central (BC) está empenhado em derrubar a inflação dos 7,6% registrados em 2004 para os 5,1% da meta ajustada deste ano, uma tarefa que deve exigir a manutenção dos juros reais em níveis elevados por um bom tempo. Para atingir o alvo de 5,1%, o índice de preços ao consumidor ampliado (IPCA) terá de cair nada menos de 32,8% em 2005, evidenciando, para muitos analistas, que as metas perseguidas pelo BC são excessivamente ambiciosas. Buscar uma trajetória de queda mais gradual da inflação - a exemplo do que fizeram países como o Chile, nos anos 90 - seria uma alternativa menos custosa e que nem por isso arranharia a credibilidade do BC, avaliam esses economistas. A meta para este ano era originalmente de 4,5%. Em setembro, porém, o BC anunciou que perseguiria um alvo de 5,1%, devido à inércia inflacionária, provocada em grande parte pela indexação de contratos, como os de energia elétrica e telecomunicações, ao índice geral de preços-disponibilidade interna (IGP-DI). O teto do intervalo de tolerância foi mantido em 7%. Foto: Carol Carquejeiro/ Valor
Loyola: BC vai ter que avaliar se derrubar inflação de 7,6% para 5,1% "é razoável em termos de sacrifício de crescimento" Para o economista Carlos Thadeu de Freitas Gomes Filho, do grupo de conjuntura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 5,1% ainda é um número muito baixo. O grande problema é exatamente o impacto que a alta dos IGPs produz sobre os preços administrados. Ele avalia que a definição de metas ambiciosas pode afetar negativamente a credibilidade do BC, em vez de reforçá-la, pois alvos baixos demais tendem a ser vistos como inatingíveis. O comportamento da inflação brasileira em 2003 e 2004 indica que derrubar o IPCA de 7,6% para 5,1% é de fato uma missão árdua. Em 2003, a inflação caiu 25,6%, recuando dos 12,5% de 2002 para 9,3%. No ano passado, quando o IPCA ficou em 7,6%, o tombo foi mais modesto, de 18,2%. Para o economista-chefe da consultoria GRC Visão, Alex Agostini, uma meta de 6% neste ano seria mais realista, além de não comprometer a credibilidade do BC. Um índice nesse nível, segundo ele, não provocaria distorções na economia. O mais importante é que a inflação continue em sua trajetória de queda ao longo dos anos, afirma Agostini. Ele destaca que um alvo de 5,1% é muito baixo principalmente por causa do comportamento dos preços administrados, que, segundo seus cálculos, devem contribuir com 3,7 pontos percentuais para o IPCA deste ano. Em 2004, os IGPs tiveram altas acima de 12%. Gomes Filho também não vê problemas numa inflação de 6% em 2005. "Se o IPCA for de 6% neste ano e de 5,5% no ano que vem, já está de bom tamanho. O fundamental é que haja convergência da inflação para a casa de 4% a 4,5% ao longo do tempo", afirma ele, que projeta um índice de 5,9% neste ano. A comparação da trajetória de inflação do Brasil com a de países como Chile e México também sugere que o Conselho Monetário Nacional (CMN) fixou metas muito rigorosas. Em 1993, o IPC chileno estava em 12,8%, atingindo exatos 5,1% cinco anos depois, em 1998. Gomes Filho nota que a inflação do Chile baixou, em média, 1,54 ponto percentual por ano no período. "Para recuar de 7,6% para 5,1%, o IPCA vai ter que cair 2,5 pontos percentuais neste ano. É uma queda muito forte." No México, a convergência foi ainda mais lenta. Depois de atingir 35% em 1995, devido à crise cambial do fim de 1994, a inflação só foi cair abaixo de dois dígitos em 2000, quando atingiu 9,5%. Para vários analistas, ainda que o Brasil não deva derrubar tão lentamente os índices de preços, devido à história de inflação crônica dos anos 89 e 90, a trajetória para as metas parece muito rigorosa. O ex-presidente do BC Gustavo Loyola, sócio da Tendências Consultoria Integrada, diz que, "olhando friamente, 5,1% é um número bastante difícil de ser atingido, embora não seja impossível". A questão, diz ele, é que isso vai exigir juros reais muito elevados - hoje, a taxa está na casa de 12%. "Ao longo deste ano, o BC deverá, mais com arte do que com ciência, julgar se o salto de 7,6% para 5,1% é razoável em termos de sacrifício decrescimento econômico", afirma ele. Loyola ressalta que não se pode ser leniente com a inflação, mas avalia que o BC pode aceitar um IPCA um pouco maior que a meta, desde que o resultado ainda represente uma queda expressiva em relação ao ano anterior. O mercado projeta um IPCA de 5,7% para 2005. Se concretizado, isso significa um recuo de 25% em comparação com os 7,6% de 2004. Um dos argumentos para o BC perseguir os 5,1% é que, se mostrar que aceita uma inflação mais alta, as expectativas do mercado para os índices tenderiam a subir, aumentando o risco de descumprimento do alvo. Para Gomes Filho, porém, tudo depende do nível do IPCA que o BC passará a buscar. "Se o BC anuncia que vai perseguir 6% em vez de 5,1%, não acho que os analistas vão considerar a autoridade monetária leniente com a inflação. E 6% é bem diferente de 10%".