Título: Aumenta cada vez mais a demanda por sofisticação
Autor: Maria Helena Passos
Fonte: Valor Econômico, 25/01/2005, Suplemento, p. F1

A rede hoteleira instalada, a gastronomia oferecida em seus renomados restaurantes e, surpresa, a oferta de cuidados para com a beleza masculina colocam São Paulo na invejável posição de estrela figurante entre as cidades capazes de oferecer luxo para ricos, famosos e poderosos. Quem hierarquiza o que torna a Sampa rebatizada por Caetano Veloso uma capital de infra-estrutura sofisticada é o executivo Carlos Ferreirinha, dono de vivência internacional e passagens por grifes como Louis Vuitton, e hoje se dedicando à consultoria especializa em luxo, MCF-Fashion. "Poucos lugares no mundo dispõem de tantos restaurantes assinados por chefs renomados até mesmo fora do país, ou ainda tantos hotéis diferenciados em sua gama de serviços, ou então, espaços exclusivos especializados no atendimento do público masculino " , reforça Ferreirinha. Encontrar guarida em locais que, de tão preocupados em preservar a privacidade e a segurança de seus clientes, sequer expõem o velho recurso da identificação externa, só poderia dar certo mesmo em São Paulo. No Ara Pacis Residenza, por exemplo, não há placas. Quem passa à frente, vê um edifício residencial. Aliás, o conceito adotado é do "hotel-residência " , nova tendência na categoria, que busca atender à demanda por empreendimentos que unam apartamentos com cara de casa e bem espaçosos (até 210m2), a serviços de hotéis de alto padrão. Há salões de beleza como o Oi, na região dos Jardins, ou o Garagem, na de Moema, aonde as mulheres são "convidadas " a não passar da recepção. Ali os rapazes usam e abusam do direito de experimentar novos creminhos, massagens modeladoras, cuidados com a pele e o cabelo, nunca dantes curtidos abertamente. Quanto aos restaurantes de referência internacional, somam mais de cem as opções destinadas aos comensais de paladar mais refinado. Mas se, por um lado, a cidade se qualifica para a oferta de luxo, por outro, ainda é carente no preparo dos profissionais que se dedicarão à causa. "Recentemente participei do recrutamento para uma casa de espetáculos de nível novaiorquino e tive problemas para atender às qualificações, porque os contatados, apesar dos conhecimentos técnicos necessários, não dispunham de vivência internacional e de um certo 'savoir-faire' para os postos imaginados pelos investidores " , conta Jeffrey Abrahams, sócio da consultoria de recursos humanos Abrahams & Associates. "Há uma cláusula de confiabilidade que não me autoriza a revelar o nome do empreendimento, entretanto vejo que apesar do crescimento do mercado de entretenimento da cidade, a mão-de -obra para o segmento ainda é desqualificada, com a digna exceção do setor hoteleiro " , acrescenta. Ferreirinha assinaria embaixo dessas avaliações. "Tudo se dá, ainda, no Brasil, de forma muito empírica " , arrisca ele. "Faltam escolas que elevem o nível de profissionais. Na gastronomia, por exemplo, mesmo tendo excelentes 'chefs de cuisine' não contamos ainda com algo do padrão de uma Cordon Bleu " . Há sete anos que a escola francesa Lê Cordon Bleu Academie d´Art Culinaire de Paris, criada por lá em 1895, negocia sua vinda para o Brasil. Existem escolas afiliadas em 15 países, sendo a mais recente delas instalada no vizinho México. A regra tem sido os próprios investidores correrem atrás do prejuízo e qualificarem seu pessoal nos moldes que lhes atendam. Ambientes chiques, como o da híperbadalada boutique Daslu preparou, por exemplo, as " aventaizinhos " , nome inventado para as moças que servem café na loja e que são bem mais habilitadas do que simples copeiras. Já para manter a mesma língua da de suas clientes, tornou balconistas as filhas de abastadas famílias paulistas, que esperam meses por uma vaga. Entre as vendedoras da loja estão nomes como o de Sofia, filha do governador Geraldo Alckmin. Mesmo nos segmentos em que há maior disponibilidade de profissionais capacitados, há necessidade de qualificações específicas para infra-estrutura de serviços No caso do hotel Ara Pacis, a preparação de pessoal foi um desafio à parte, como conta Jefferson Abbud, diretor-presidente da Munir Abbud Empreendimentos Imobiliários, idealizadora do projeto. Para elaborar seu padrão exclusivo de atendimento eles contrataram um treinamento in house do Senac focando as técnicas de trabalho de recepção. Aliás, o Senac tem sido reconhecido como o grande fornecedor de mão-de-obra diferenciada. "Os melhores profissionais que encontrei nos serviços de beleza são invariavelmente formados por eles " , endossa Ferreirinha. O reconhecimento de que o mercado de luxo requer gente diferenciada acabou por provocar o nascimento de um curso de nível superior dedicado ao tema. Nasceu na França, no Essec Business Schol, que criou, em 1995, o primeiro curso latu sensu sobre esse universo com 11 meses de duração. "Tentar entender quem são e como se movimentam os consumidores do luxo tem sido a tarefa de um seleto grupo que se reúne faz quatro anos e do qual participo" conta Ferreirinha. Fazem parte da conferência anual Luxury Seminar, patrocinada pelo Herald Tribune e o New York Time, profissionais do ramo atuantes em países em que esse segmento mais se destaca. No Brasil, no mundo do glamour, bilhões de dólares, marcas poderosas e produtos que são objetos de desejo, já há lugar para executivos e empresários especializados. No ano passado, a Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) criou o primeiro MBA do luxo das Américas. O curso abrange desde história da arte, moda, design e marcas até a gestão do luxo em si. A maioria dos professores é formada por executivos do mercado, como Rubens Panelli (CEO da Daslu), Freddy Rabbat (presidente da Montblanc) e Eliane Santos (gerente-financeira da Louis Vuitton). A proposta, explica mais uma vez Ferreirinha um dos idealizadores, "tem sido também manter seminários com executivos e criadores estrangeiros, assim como finalizar o MBA com uma temporada de três meses conhecendo as grandes empresas de luxo na Europa " . Depois que o IBGE revelou que a fome não é problema tão grave quanto imaginam os petistas do governo, mas sim a obesidade, ninguém vai se surpreender se, em pouco tempo, o Brasil passar a ser um dos líderes em formação de mão-de-obra para o segmento do luxo no mundo. Abaixo do Equador, e particularmente na cidade de São Paulo, nada mais surpreende.