Título: Crise vira página da história econômica
Autor: Nunes, Vicente ; Pires, Luciano
Fonte: Correio Braziliense, 09/01/2011, Economia, p. 14
A explosão da instabilidade em 2008 acelerou mudanças no cenário mundial, alçando à liderança países em desenvolvimento. Com fundamentos sólidos, inflação sob controle e mercados de consumo fortes, essas nações dominam os fluxos de investimentos
A crise financeira mundial ¿ estourada no último trimestre de 2008 e que se estendeu no ano seguinte ¿ contribuiu, e muito, para uma forte mudança no cenário econômico. As incertezas sobre a recuperação rápida da Europa e dos Estados Unidos, países considerados seguros para a maioria dos investidores, desencadearam um forte redirecionamento do capital estrangeiro rumo aos países emergentes. No meio da turbulência financeira, essas nações também ganharam voz e importância no contexto geopolítico que culminou com a ascensão do G-20 ¿ grupo que reúne as 19 mais importantes economias do planeta e a União Europeia ¿ ao topo da liderança do debate global. Criado nos anos 1990 com viés comercial, o bloco tornou-se a expressão do atual e do futuro pensamento mundial.
Estimativas feitas pelo Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês) confirmam esse movimento. A organização que agrega os maiores bancos do mundo prevê que os países emergentes receberam US$ 825 bilhões em 2010, ou seja, 42% a mais do que os US$ 581 bilhões do ano anterior. China e Brasil lideram o ranking desses investimentos e são acompanhados de perto pelos demais integrantes do Bric (acrônimo do grupo que, além de Brasil e China, reúne Rússia e Índia). A África também demonstra um grau elevado de expansão.
O fato de os emergentes se expandirem em um ritmo bem mais acelerado do que as economias mais ricas é o principal atrativo dos investimentos estrangeiros. Para o IIF, essa tendência tenderá à aceleração nos próximos anos, quando os emergentes assumirão, de vez, o papel de protagonistas do mundo. É o que reforça estudo da Consultoria PricewaterhouseCoopers: em 2050, o Brasil será a quarta maior economia global e os países em desenvolvimento ganharão, cada vez mais, importância no cenário global, desbancando o G-7 ¿ Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá¿ , até bem pouco tempo o clube que dava as cartas no planeta.
A nova ordem global não mudará nem mesmo com as economias mais ricas saindo do atoleiro em que se encontram. ¿Os olhos dos investidores estão voltados para os países emergentes. E vão permanecer assim por um longo período¿, diz Carlos Asciutti, sócio da Ernst & Young. Sobre o Brasil, ele é taxativo: ¿A economia brasileira vem ganhando massa muscular. O país vive hoje um momento semelhante ao dos Estados Unidos nos anos de 1950 e 1960, tanto em taxa de crescimento quanto de investimentos¿. O mais interessante, ressalta, é que o poderio econômico do Brasil está atravessando fronteiras, criando raízes mundo afora. Empresas verde-amarelas como a Vale, a Petrobras, a Gerdau e o frigorífico JBS estão entre os líderes globais dos mercados em que atuam.
Lucro certo Ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles vai além: ¿O Brasil é considerado um dos cinco mercados mais importantes do mundo por diversas companhias internacionais. Tem uma das maiores indústrias automobilísticas do mundo, com 25 fábricas¿. A filial da Fiat, por exemplo, já é maior no país do que a sua matriz italiana. Entre 2008 e 2009, quando a General Motors quase foi à falência nos Estados Unidos, as unidades brasileiras lucraram alto. ¿O capital sabe onde vale a pena estar, onde o lucro é certo. Certamente, essa não é a realidade das economias desenvolvidas¿, analisa o economista Frederico Turolla, sócio da consultoria Pezco e professor do Programa de Gestão Internacional da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
A rápida recuperação da economia brasileira após a crise financeira global tem feito a diferença nas decisões dos investidores. Mas não é só. O potencial de oportunidades na área de infraestrutura enche os olhos dos que estão atrás de bons negócios. Além das estradas deficientes, de aeroportos à beira do caos, ferrovias e portos com gargalos terríveis, a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 despontam como oportunidades poucas vezes vistas em um espaço tão curto de tempo. Não à toa, o Brasil e os demais emergentes entraram de forma definitiva no radar dos chamados fundos de private equity, especializados em investimentos de risco. ¿A taxa média de retorno desses fundos no mercado brasileiro gira em torno de 17%, acima da média global, entre 8% e 10%¿, diz André Segadilha, sócio da AEG Soluções. ¿Em algumas regiões do país, o percentual de rentabilidade é até três vezes maior.¿
De olho nesse potencial, o indiano Ahsan Ali Syed, dono da WGA, despejou US$ 650 milhões em vários países emergentes e planeja aplicar US$ 500 milhões só no Brasil. ¿Vamos entrar com força no país em 2011. Pretendemos investir em diversas áreas e regiões¿, afirma Syed. ¿Estamos em contato com 18 empresas no momento¿, ressalta, mantendo sigilo sobre os parceiros, dada à acirrada concorrência. ¿Procuro investir em vários setores. As oportunidades são muitas: infraestrutura, mineração e habitação. Mas se houver a possibilidade de investirmos no mercado financeiro, não vamos ignorar¿, avisa.
Percalços Na visão do diretor de operações da Rio Bravo Investimentos, Luis Eugênio Figueiredo, o aumento do fluxo de capitais estrangeiros para as economias emergentes ficará na casa dos dois dígitos nos próximos anos. ¿As chances de ganho são enormes¿, resume. A razão para isso é simples: a maior parte desses países combina políticas macroeconômicas consistentes, mobilidade social, inflação sob controle e, no caso do Brasil, um sistema democrático consolidado. Com isso, o risco-país, que passava dos 2.400 pontos há oitos, está encostando nos 100 pontos, taxa de nações desenvolvidas.
¿Quanto menor for esse índice, menor é o risco de insolvência para a economia. Essa é a razão pela qual os investimentos externos em 2011 poderão ultrapassar US$ 45 bilhões, registrando aumento de 22% sobre o ano passado. Esse é o verdadeiro fator de valorização da moeda nacional¿, analisa o professor de Economia da Escola de Administração e Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (Eaesp-FGV) Ernesto Lozardo, autor do livro Globalização: a certeza imprevisível das nações. Nem tudo, porém, são flores. O economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal, alerta para os riscos da volta da inflação com a onda de investimentos estrangeiros no país. Para ele, é preciso garantir que o grosso do dinheiro vá para o aumento do parque produtivo e não para a especulação. ¿É nesse ponto que o governo terá papel relevante, o de regulador, para evitar desequilíbrios¿, frisa.
Escalada Os fundos de investimento em capital de risco crescem de forma acentuada no Brasil. Atualmente, o volume de recursos injetados no país por meio deles atinge algo em torno de US$ 40 bilhões. A Rio Bravo Investimentos é um exemplo dessa escalada. Em curto espaço de tempo, captou R$ 300 milhões para projetos de infraestrutura e já registra demanda para um segundo fundo da mesma dimensão.