Título: Internet em 3D promete trazer mundo real para o PC
Autor: McConnon, Aili
Fonte: Valor Econômico, 21/08/2007, Especial, p. A12

Quando o Google Earth foi lançado em 2005, as pessoas se divertiam digitando os endereços de suas casas, vendo a terra como se estivessem flutuando no espaço, e então mergulharem para ver uma imagem de satélite de suas casas ou apartamentos. Hoje em dia, os usuários melhoraram o Google Earth com suas próprias fotografias e réplicas digitais tridimensionais de casas e prédios. Mas um dia eles poderão descer sobre uma rua no Google Earth e encontrar algum conhecido - e até mesmo ter uma conversinha.

Esse tipo de encontro ainda está alguns anos distante, mas não é um sonho impossível. O Google, a Linden Lab, criadora do "Second Life", a IBM e um pequeno grupo de outras companhias estão caminhando para o dia em que você poderá passear pela internet 3D - e não só por seus sites -, usando uma réplica virtual sua, que você mesmo criou. Elas estão trabalhando para estabelecer padrões técnicos, abertos a todos os programadores, que permitirão à internet inteira se tornar uma galáxia de mundos virtuais conectados.

Nesse cenário do futuro, você poderá ir até um shopping center com um grupo de amigos durante a pausa para o almoço, mesmo estando a quilômetros de distância. Na verdade, você estará preso ao seu terminal de trabalho, mas na tela você será transportado para uma réplica digital do shopping center. Quando você entrar em uma loja de jeans virtual, câmeras da internet posicionadas na loja verdadeira permitirão a você ver o quanto ela estará cheia, caso algum item popular esteja em liquidação. Seu avatar, criado com as medidas de seu corpo, experimentará alguns jeans, mostrando-os para os seus amigos. Você poderá comprar as calças on-line ou visitar a loja real posteriormente. De qualquer modo, você terá uma tarde divertida sem precisar deixar sua mesa.

Tal avanço tecnológico exigirá a superação de obstáculos enormes. A interface do computador, para aceitar imagens em três dimensões e interagir além dos limites do Second Life ou outras simulações virtuais, terá que ser intuitiva aos usuários. Isso vai exigir inovações do tipo das que transformaram as páginas da internet de documentos estáticos em páginas dinâmicas atualizadas em tempo real e navegadas por hyperlinks. "Isso parece os primeiros dias da internet", diz Steve Prentice, vice-presidente da consultoria Gartner Research. A Gartner estima que até 2011, 80% dos usuários da internet e as grandes companhias terão avatares, ou réplicas digitais de si mesmos, para o trabalho ou diversão on-line.

Apesar de toda essa excitação, ainda há muito pessimismo entre os especialistas em tecnologia sobre a possibilidade de as empresas chegarem a um acordo sobre os padrões que permitirão a existência de um mundo em três dimensões aberto. Afinal de contas, é só olhar para a briga violenta que está ocorrendo hoje por causa dos padrões de DVD HDDVD e Blu-ray. Por enquanto, Second Life, There.com e outros mundos virtuais estão presos em espaços onde uma companhia dá todas as cartas. Se um consumidor cria um avatar ou uma companhia cria uma fachada virtual de uma loja, eles estão presos naquele site. Os avatares não podem passear de uma loja da American Apparel no Second Life e depois darem uma passada no banco virtual que o Wells Fargo tem na internet.

Portanto, poderá levar até uma década antes que algo parecido com isso se torne uma coisa corriqueira. Mas as companhias já estão desenvolvendo novos browsers e outras tecnologias que são os passos iniciais para tornar a internet 3D uma realidade. A Linden Lab pretende divulgar um código de software para seus servidores dentro de um ano ou dois. Quando isso acontecer, programadores poderão modificá-lo para criar seus próprios sites do tipo Second Life, e construir conexões que permitirão a uma loja ou outro aplicativo de um determinado site virtual, interagir com os de outros, afirma Cory Ondrejka, diretor de tecnologia da Linden Lab. A companhia ainda não decidiu se vai transferir o código para a supervisão de um órgão padronizador ou se vai compô-lo, colocá-lo para trabalhar e esperar estabelecer um conjunto de padrões, da mesma maneira que o Windows da Microsoft venceu a plataforma da Apple na década de 1980 ao se abrir.

Dentro de 18 meses, um dos grupos de padrões, o Web3D Consortium, espera lançar um avatar que poderá saltar entre sites, afirma Rita Turkowski, diretora executiva do grupo. O consórcio é formado por grandes companhias como a Sun Microsystems e empresas menores que fazem modelagem em 3D para companhias como a Shell Oil. Ele está se empenhando para desenvolver objetos em três dimensões que funcionem em diversos aplicativos através de um formato de arquivo compartilhado chamado X3D. O avatar interoperável provavelmente será aprovado pela I.S.O., uma organização que verifica padrões técnicos como o JPEG, um formato compartilhável para imagens digitais, para seus 157 países membros.

Alguns criadores do mundo virtual já encorajam as tecnologias abertas. A Multiverse Network, fundada por vários funcionários iniciais da Netscape, desenvolveu avatares que podem se movimentar de um mundo para outro. Mas as pessoas precisam usar o "world browser" da companhia, que surfa apenas em mundos criados com ferramentas de software da Multiverse. O modelo de negócios da companhia encoraja a experimentação: ele fornece as ferramentas para que os usuários possam construir seus mundos gratuitamente. Mais de 200 estão em construção. Se esses mundos gerarem um lucro sobre as vendas digitais, a companhia fica com 10%. A Qwaq, uma empresa com sede em Palo Alto, na Califórnia, também desenvolveu ferramentas para a construção de mundos digitais para clientes como a Intel e a BP. Diferentes companhias, como uma vendedora ou uma fornecedora, podem conectar seus espaços virtuais e puxar e enviar qualquer documento, planilha ou apresentação no PowerPoint, de seu desktop para o "mundo" para ser compartilhado com outros.

Pesquisadores possuem pontos de vista muito diferentes sobre a aparência que a internet 3D terá. A maioria concorda que ela não vai eliminar a internet da maneira como a conhecemos. Ao invés disso, será possível se movimentar entre os sites da internet e os mundos virtuais, assim como hoje nós passamos da leitura de um artigo jornalístico para um videoclip no YouTube. Para busca ou leitura de textos, os sites de hoje funcionam bem e continuarão a fazer isso. Mas a internet 3D poderá tornar possível uma versão virtual das atividades que as pessoas têm na vida real com outras pessoas que pensam de maneira parecida. Você poderá comprar ingressos para um jogo de baseball em um site padrão da internet, por exemplo, e depois ir para um estádio em um mundo virtual separado para se encontrar com alguns amigos e assistir o jogo (a um preço menor que o do jogo real, espera-se).

A exploração imobiliária ou qualquer coisa relativa a espaço é outra área em que o 3D pode fazer sentido, afirma Thomas W. Malone, um professor de administração do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Antes de reservar um quarto de hotel ou alugar um apartamento, você poderá andar por uma versão digital realista do imóvel e olhar para ele de qualquer perspectiva que você quiser, ou dar uma olhada em algumas quadras da vizinhança. Isso deverá ser uma grande melhoria sobre as turnês de vídeo que os sites de hotéis e imobiliárias oferecem hoje em dia.

Mesmo assim, algo tão simples como levar seu avatar de um site da internet para outro exige que a tecnologia de suporte dos diferentes sites se comuniquem em uma linguagem única. E avatares portáteis levantam uma série de considerações legais sobre quem é dono deles, uma vez que eles estarão em movimento - o usuário ou as companhias donos dos sites de origem. "Pode fazer sentido não mover o avatar inteiro, e sim apenas as características importantes", diz Sandy Kearney, diretor global da IBM para a internet 3D.

Falando de uma maneira prática, isso poderá significar que quando você passar de um site de relacionamentos como o MySpace para um mundo virtual como o There.com, sua lista de amigos e seus detalhes básicos (sexo, idade, etnia) também passarão. Ou isso poderá significar que você aparecerá de cabelo verde, ao estilo desenho animado em um mundo virtual de relacionamentos, mas suas roupas mudarão para um terno quando você entrar no site 3D da empresa onde trabalha.

Por enquanto, algumas companhias estão se concentrando em tornar objetos digitais menos complicados, como prédios, "movimentáveis" através da internet. Em 2006, o Google adquiriu a companhia que criou o Sketch-Up, uma ferramenta de design que permite às massas criar objetos em três dimensões e importá-los para aplicativos como o Google Earth. O Google Earth também suporta um formato de arquivo chamado Collada, desenvolvido originalmente pela Sony para o PlayStation. Agora, Google, Apple, DamilerChrysler, Nokia, Intel e outras também apóiam o Collada.

Esses poderão ser os importantes primeiros passos em direção a uma internet 3D mais ampla. O Google já está trabalhando para conectar 250 milhões de usuários do Google Earth, para torná-lo um espaço de rede social, afirma Peter Birch, um gerente de produtos do Google. Hoje, entusiastas batem papo e se interagem em blogs e mesas de discussão separados. Amanhã, eles poderão conversar nas ruas virtuais. (Tradução de Mário Zamarian)