Título: DeVry, dos EUA, estuda aquisição para entrar no Brasil em 2008
Autor: Valenti, Graziella
Fonte: Valor Econômico, 29/08/2007, Empresas, p. B1

A forte presença da iniciativa privada no setor de educação brasileiro criou fama, atravessou as fronteiras e vem atraindo mais interessados. A universidade americana DeVry diz ter cerca de US$ 300 milhões para internacionalizar seus negócios. O Brasil, México e Índia são as prioridades nesse projeto. A empresa acredita que aportará no país já em meados de 2008.

O plano da DeVry para entrar no Brasil é comprar alguma unidade que tenha entre 10 mil e 20 mil alunos, conta Sérgio Abramovich, diretor de desenvolvimento de negócios internacionais da companhia. Há cerca de três meses, ele pesquisa o mercado brasileiro de ensino superior. Nesse período, o executivo elegeu 30 alvos potenciais. Desse total, 10 possuem o perfil procurado para a estréia internacional.

Com assessores financeiros já contratados, Abramovich inicia agora a fase dos primeiros contatos com os donos dos negócios selecionados. O projeto de médio prazo no país inclui possíveis aquisições e expansão orgânica, de forma a levar a DeVry à marca de 40 mil alunos em quatro anos.

O Brasil tem cerca de 2,4 mil instituições de ensino superior, sendo 2,1 mil de capital privado, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). É corrente a análise de que o país é um caso único no mundo, pela forma com que a educação é encarada como um negócio.

Não por acaso, as aquisições estão aquecidas no setor. As transação são lideradas, principalmente, pelos grupos que abriram capital - Anhangüera Educacional, Kroton (Pitágoras) e Estácio. A empresa Sistema Educacional Brasileiro (SEB), da rede COC, também está na fila da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para fazer oferta pública inicial de ações.

Abramovich acredita que a consolidação reduzirá a dispersão do mercado para aproximadamente 1,5 mil instituições privadas. Mas, para o executivo, a principal mudança que esse processo trará ao setor é o refinamento da proposta educacional dos grupos privados. Cada um buscará aprimorar o foco das operações, seja pela regionalização, seja pelo desenvolvimento de uma modalidade de cursos.

Nos Estados Unidos, a DeVry tem hoje cerca de 52 mil alunos, sendo 35 mil estudantes on-line, ou seja, por ensino à distância. O faturamento alcançado em 12 meses, no ano fiscal encerrado em junho, somou US$ 933,5 milhões, com alta de 11,2% sobre igual período de 2006. O lucro líquido, excluídas receitas com venda de ativos e outros itens extraordinários, foi de US$ 67,3 milhões, equivalente a um aumento de 57,2%. Considerando os ganhos extras, o lucro sobe para US$ 76,2 milhões.

A decisão pela internacionalização veio no fim do ano passado, quando a DeVry concluiu o processo de recuperação dos negócios. Ao final de junho, a empresa zerou suas responsabilidades financeiras. Um ano antes, tinha dívida bruta de US$ 125 milhões. Nessa mesma comparação, as disponibilidades em caixa ficaram estáveis, em torno de US$ 130 milhões.

Ao comentar os números do ano fiscal de 2007 em apresentação disponível no site da empresa, o presidente Daniel Hamburger afirma: "Tenho o prazer de dizer que a empresa está de volta aos projetos de crescimento". A opção pela expansão externa nesse momento deve-se à combinação da melhora na situação financeira da empresa com as perspectivas de crescimento do setor de ensino nos países selecionados, ante o amadurecimento do mercado americano. Em comum, os três países escolhidos têm os elevados níveis de desigualdade social.

O foco da universidade americana é a população das classes de menor renda, ou seja, de B a D. Aqui, esse também será o público-alvo do serviço. Abramovich acredita que o diferencial da DeVry para competir com os grupos já instalados no país é a capacidade de colocação no mercado de emprego - destaque também nos EUA.

Lá, a empresa consegue colocar cerca de 90% de seus alunos, até seis meses depois da conclusão do curso, em postos com remuneração anual de US$ 40 mil. Para tanto, boa parte das aulas são dedicadas às atividades práticas. Além disso, a companhia mantém parcerias com empresas para permanecer atualizada sobre as necessidades desse universo.

Ele espera atrair alunos no Brasil sem competir em preços com as demais universidades voltadas à baixa renda. A expectativa é encontrar um público disposto a gastar mais por um ensino que ofereça melhores oportunidades de emprego.

Além disso, a DeVry pretende incluir a troca de experiências com as unidades americanas e o ensino à distância como diferenciais no Brasil - e nos demais mercados em que atuar. A estréia fora dos EUA e o ensino on-line compõe o plano de expansão da companhia, junto com a diversificação dos cursos e a otimização da estrutura.