Título: Economia aquecida provoca o 1º déficit desde início de 2006
Autor: Ribeiro, Alex
Fonte: Valor Econômico, 24/08/2007, Finanças, p. C6
O maior aquecimento da economia começa a reduzir os grandes saldos nas contas externas que vinham sendo registrados desde 2003, mostram dados divulgados ontem pelo Banco Central. Em julho, ocorreu um déficit em conta corrente de US$ 717 milhões, o primeiro desde janeiro de 2006. A autoridade monetária, que projetava equilíbrio nesse indicador, foi surpreendida pelo crescimento acima do esperado das importações e, em menor escala, pelo aumento nas remessas de lucros e dividendos e pelo alto pagamento de juros.
O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, afirma que os dados de julho mostram que, daqui para diante, o país irá registrar saldos um pouco menos expressivos em conta corrente. "Mas não vamos ter uma mudança de tendência, com déficits", afirmou Lopes. Para agosto, por exemplo, o BC espera novamente equilíbrio.
Embora o resultado de julho tenha sido inesperado, a queda no saldo em conta corrente neste ano não chega a ser, exatamente, surpresa para o BC, que já vinha contando com isso, em algum momento. Uma das justificativas apresentadas pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do BC para acelerar os cortes na taxa básica de juros no primeiro semestre é que havia espaço para maior aquecimento da demanda interna, que seria atendida pelo aumento das importações.
A projeção do BC para as contas correntes deste ano já contemplava uma redução no superávit. O saldo fecharia em 0,92% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2007, percentual que equivale a US$ 10,7 bilhões, abaixo do 1,28% do PIB observado em 2006. As estatísticas divulgadas ontem mostram que, de fato, já houve redução para o patamar esperado. Nos 12 meses encerrados em julho, o saldo em conta corrente foi de 0,99% do PIB, o mais baixo verificado desde abril de 2004.
Mas não está descartada a hipótese de o saldo ficar abaixo dos 0,92% do PIB esperados pelo BC. Nos sete primeiros meses de 2007, o saldo em conta corrente correspondeu a 0,6% do PIB. Em, agosto, o saldo deve cair, já que o BC espera equilíbrio em conta corrente, enquanto no mesmo mês de 2006 foi registrado um superávit de US$ 2,184 bilhões.
O Brasil entrou em um período de altos superávits em conta corrente a partir de 2003, após uma forte desvalorização do real e uma política monetária restritiva, que conteve a demanda doméstica. O superávit chegou ao máximo de 1,94% do PIB, nos 12 meses encerrados em abril de 2005. Antes de 2003, a regra eram os déficits em conta corrente, mantendo uma tendência observada desde o regime de câmbio fixo. O maior déficit desse período foi de 4,69% do PIB, nos 12 meses encerrados em agosto de 2001. A partir de então, as contas externas sofreram um longo ajuste, provocado por várias crises internacionais e domésticas.
Lopes assinala que em julho de 2007 as importações foram 35% maiores do que no mesmo mês de 2006. As projeções do BC para o balanço de pagamentos contemplam um aumento nas importações de 23% em 2007. "Está havendo um crescimento disseminado das importações, com destaque para combustíveis e lubrificantes, matérias-primas e bens de capital", afirma Lopes.
As contas correntes são um indicador importante das necessidades de capital do país. Quando o país registra saldos em conta corrente, significa que existe sobra de recursos para pagar dívida externa, acumular reservas internacionais ou fazer investimentos no exterior. Quando há deficit, o país é obrigado a atrair investimentos ou tomar empréstimos para cobrir a diferença.
Nas contas correntes estão incluídas balança comercial, pagamentos de renda (juros da dívida, remessas de lucros e dividendos) e serviços (turismo internacional, fretes, aluguel de equipamentos etc.), além das transferências unilaterais (sobretudo dinheiro remetido ao país por brasileiros que emigraram ao exterior).
Os números apresentados pelo BC mostram que também houve aumento expressivo nas remessas de lucros e dividendos. Em julho, essa despesa, em termos líquidos, foi de US$ 2,131 bilhões, aumento de 133% em relação a julho de 2006. Nos sete primeiros meses de 2007, as remessas aumentaram 10,8%. A projeção do BC é remessas totais de US$ 15,7 bilhões em 2007.
Três fatores estão por trás do aumento das remessas, explica o chefe do Departamento Econômico do BC: 1) o real se valorizou, o que aumenta o volume de investimentos mantidos por estrangeiros no Brasil, quando convertido em dólares; 2) aumentaram os ingressos de investimentos diretos; 3) as empresas estão lucrando mais.
Os setores que mais enviaram lucros e dividendos são intermediação financeira (US$ 622 milhões) fabricação de veículos automotores (US$ 316 milhões) e comércio (US$ 263 milhões). Os países que mais receberam lucros e dividendos são Estados Unidos (US$ 511 milhões), países baixos (US$ 455 milhões) e França (US$ 229 milhões). Em julho houve forte pagamento de juros da dívida. Essa despesa chegou a US$ 1,123 bilhão, mais 3% sobre igual período de 2006. O pagamento de juros foi mais forte no mês devido à concentração de encargos de bônus globais emitidos pelo governo. O aumento do gasto com juros em julho, porém, pode ser visto como evento episódico. Nos sete primeiros meses de 2007, houve redução de 21% nessa despesa, graças à redução da dívida externa e ao acúmulo de reservas, que aumenta a receita do país com juro.