Título: Haiti revive o pesadelo
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 13/01/2011, Mundo, p. 24
TERREMOTO, UM ANO DEPOIS Milhares de pessoas saem às ruas de Porto Príncipe para reverenciar a memória dos quase 250 mil mortos na pior catástrofe da história do país. Sobreviventes descrevem as cerimônias e o papa Bento XVI defende esforços em prol da reconstrução
Por volta de 12h30 de ontem (16h30 em Brasília), Jean Robert Sougrain esteve em Champ de Mars. O local de Porto Príncipe onde os haitianos costumavam tomar sol e relaxar deu lugar ontem à tristeza e à saudade. ¿Muitas pessoas choravam, algumas delas haviam enterrado todos os seus familiares. Havia muito desespero. Alguns sobreviventes não sabem nem mesmo quanto tempo viverão sob tendas, após perderem tudo¿, relatou ao Correio o empresário de 42 anos. De acordo com Sougrain, a cerimônia ecumênica reuniu padres e pastores do país e dos Estados Unidos. ¿Vi famílias em lágrimas, uns segurando as mãos dos outros¿, acrescentou. Diretor da rádio protestante da capital, Livio Dubernard explicou o propósito da reunião. ¿Estamos aqui para celebrar a vida. Em 12 de janeiro (de 2010), foi a morte, hoje é a vida que nos chama¿, declarou à agência France-Presse.
Quase ao mesmo tempo, o estudante Beauvoir Sebastien Garsy, de 19 anos, usava um celular da marca Blackberry para descrever o que via, do lado de fora da Igreja Sur de la Rocher, no bairro Delmas 33, situado na região oeste da capital do Haiti. ¿Deus abençoou a cada um de nós com a chance de vivermos esse dia, pois perdemos muitos irmãos e irmãs¿, desabafou o rapaz, em entrevista à reportagem. ¿Eu agradeço a Ele por ter nos protegido durante o pior ano de nossas vidas.¿
O templo estava lotado ¿ mais de mil pessoas se espremiam no local ¿ e Beauvoir procurava escutar a cerimônia. ¿Muitos foram até o altar para falar sobre aquele dia¿, disse. Outra cerimônia ocorreria diante dos escombros da Catedral de Nossa Senhora da Assunção, onde morreu a brasileira Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança.
Foi assim, movidos pela fé e pela dor, que haitianos saíram de suas casas e de suas tendas improvisadas para lembrar o primeiro aniversário do terremoto de magnitude 7 na escala Richter. A bandeira do país foi baixada a meio mastro e o Palácio Nacional, ainda em ruínas, era a lembrança viva de uma tarde que muitos pretendem esquecer. ¿Minha tia morreu. Uma grande rocha estava caindo sobre minha irmã, eu a salvei, mas quebrei a mão em vários pedaços¿, afirma Beauvoir.
Às 16h53 (19h53 em Brasília), a hora exata em que a terra tremeu, a população de Porto Príncipe fez um minuto de silêncio. Balões brancos foram soltos, em homenagem aos quase 250 mil mortos. Desde o amanhecer, a TV nacional exibiu, sem interrupções, imagens dos corpos sob os escombros e de sobreviventes tomados pelo terror. Bíblia nas mãos, roupas tradicionalmente usadas no domingo e orações efusivas transpareciam um dia especial para os haitianos. ¿Depois do terremoto, tudo mudou na minha vida. Percebi que nada é realmente importante e que tudo pode ser destruído em um segundo. Para mim, o que conta é amar nossos irmãos, e ter Deus em primeiro lugar¿, desabafou o estudante Edgard Assé, de 23 anos, morador de Delmas 33, em entrevista pela internet.
Em um dos momentos mais simbólicos, o presidente haitiano, René Préval, depositou a primeira pá de cimento sobre o antigo prédio do Serviço Nacional de Impostos, que dará lugar a um memorial. ¿Continuamos a dar as mãos. Então, essa tragédia nos tornou unidos¿, discursou o chefe de Estado, acompanhado do ex-presidente americano Bill Clinton.
Doações Um ano depois da catástrofe, quase nada foi feito pelo Haiti. Os doadores internacionais prometeram cerca de US$ 10 bilhões, mas apenas uma parte do dinheiro foi liberada. O papa Bento XVI instou ontem os haitianos a trabalharem para a ¿reconstrução e convivência civil, social e religiosa¿ do país. ¿Chegou a hora da reconstrução, não apenas das estruturas materiais, mas também da convivência civil, social e religiosa¿, escreveu o líder católico, numa mensagem lida em Porto Príncipe pelo cardeal Robert Sarah, enviado especial do Vaticano. ¿Desejo que o povo haitiano seja o protagonista de sua história, tanto da atual como da futura, e que conte com a ajuda internacional¿, acrescentou o texto.
A Organização dos Estados Americanos (OEA) homenageou a memória das vítimas do tremor. ¿Devemos refletir como podemos continuar ajudando para assegurar que o Haiti não seja abandonado, nem esquecido¿, declarou a norte-americana Carmen Lomellin, presidente do Conselho Permanente da OEA.
CAESB FIRMA ACORDO DE COOPERAÇÃO » A Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) realizou duas viagens ao Haiti e firmou um acordo de cooperação técnica com a Direction Nationale de l"Eau Potable et Assainissement (Dinepa), a empresa estatal responsável pela água potável e pelo saneamento no país. Em novembro, cinco engenheiros visitaram Porto Príncipe e Saint Marc, a 120km da capital, em missão oficial. Em Porto Príncipe, a equipe realizará projetos para o tratamento dos efluentes dos banheiros químicos de acampamentos, além de uma análise para a implantação de um sistema condominial de esgotos. Em Saint Marc, os especialistas estudam a viabilidade de um sistema de esgotamento que atenda aos 120 mil habitantes.
Solidariedade brasileira
A presidente Dilma Rousseff divulgou ontem mensagem alusiva ao primeiro aniversário do terremoto. No texto, ela pede um momento de reflexão, em memória das vítimas, e conclama a comunidade internacional a um ¿renovado esforço¿ em prol da recuperação do Haiti. ¿Quero me associar aos que participam, em todo o mundo, de cerimônias rememorativas dessa imensa tragédia que se abateu sobre aquele povo irmão¿, escreveu a mandatária. No texto, Dilma enaltece o trabalho dos soldados brasileiros que participaram da Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah) e rende homenagem aos 18 militares compatriotas, à médica Zilda Arns e ao representante adjunto da ONU para o Haiti, Luiz Carlos da Costa. ¿Eles estavam em missão de solidariedade e, lamentavelmente, perderam a vida durante o terremoto¿, afirmou. ¿Reafirmo nossa determinação de ajudar na reconstrução desse país. (¿) O Brasil e a Minustah vão perseverar, pois sabemos que os haitianos não desistirão.¿
Em outra mensagem, o Itamaraty reafirmou solidariedade ao povo e ao governo do Haiti e prometeu ¿seguir intensificando¿ a assistência humanitária do país, além de apoiar a reconstrução. Segundo o texto, o Brasil já efetivou o aporte, junto ao Fundo de Reconstrução do Haiti, de 80% dos US$ 172 milhões de sua promessa de contribuição ao país. (RC)
Eles escaparam
¿Muitos de nós somos gratos pelo que Deus nos fez. Muitos sabem que Deus nos salvará da miséria e que teremos uma vida melhor. O terremoto do ano passado foi uma punição, um fato para nos mostrar que Deus é mais forte que tudo. Eu espero que todo haitiano tenha uma grande vida. E que o Haiti seja melhor reconstruído, para que todos possam viver melhor¿ Beauvoir Sebastien Garsy, 19 anos, morador de Porto Príncipe
¿Perdi cinco amigos no terremoto. Acredito que o governo precisa prestar mais atenção em como as pessoas construirão suas casas e informá-las sobre como se proteger de um grande terremoto. Vi soldados brasileiros retirando pessoas dos escombros, mas não presenciei nenhum esforço de reconstrução. Temos muitas promessas, mas nada de concreto¿ Jean Robert Sougrain, 42 anos, morador de Porto Príncipe