Título: Novas elevações da taxa de juros estão a caminho
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 01/02/2005, Opinião, p. A16

O Comitê de Política Monetária deixou claro que são necessárias novas elevações dos juros para que a inflação possa convergir para a estreita meta perseguida de 5,1%. Segundo a ata de sua mais recente reunião, esses ajustes adicionais devem ser acompanhados por "período suficientemente longo de manutenção dos juros" para que o Banco Central cumpra seu objetivo. E essa ainda é uma perspectiva otimista diante das que foram examinadas pelo Copom, que avaliou a possibilidade de acelerar o ritmo de alta e acabou descartando-a. A dinâmica dos núcleos de inflação é uma das importantes justificativas para o comportamento do Copom. Todos eles cresceram nos últimos dois meses. O núcleo por exclusão, que elimina preços monitorados e alimentos, fechou 2004 em 7,95%, acima do IPCA pleno de 7,6%. O núcleo por médias aparadas, com suavização, atingiu 7,52%, e o sem suavização, 6,78%. A contribuição dos preços livres para o índice cheio foi de 4,66 pontos percentuais, ante 2,94 pontos percentuais dos preços monitorados. Esses preços, os únicos que por contrato carregam a inflação passada, subiram 10,19% em 2004, ante 6,55% dos preços livres. O Copom argumenta também que o índice de difusão, a quantidade de produtos que compõem o índice que tiveram seus preços majorados, vem subindo nos últimos três meses e em dezembro atingiu 68%. Mas a tendência futura pode não ser essa. O Índice de Preço do Atacado, do IGP, recuou de 1% para 0,48% em dezembro, e a queda maior ocorreu nos preços industriais, que se elevaram 0,38%, ante 1,3% no mês anterior. Estão puxando para baixo o índice preços que no passado contribuíram para sua disparada. É especialmente significativo que entre eles se incluam o setor químico, de mecânica, e metalurgia, que estão com alta índice de utilização da capacidade ociosa. Bens finais e bens intermediários tiveram menor variação. O IGP-M de janeiro confirma o recuo do atacado - 0,2%, ante 0,81% de dezembro. O que tanto atemoriza o BC, pela ênfase dada e o espaço destinado na ata, ainda é a possibilidade de um superaquecimento da economia. "Continua sendo necessário que a política monetária permaneça especialmente vigilante em relação ao ritmo de expansão adicional da demanda", aponta a ata. Entretanto, há poucos dados que sustentem as preocupações do Copom. O índice da capacidade utilizada caiu pelo terceiro mês consecutivo e, pelos dados da CNI, fechou novembro em 82,9%. O aumento do uso da capacidade até novembro, porém, foi de apenas 3,2% - o que francamente não é muito - , ante um crescimento da produção industrial de 8,3%. É evidente, mas não há menção a isso na ata, que o "hiato do produto" não está se fechando temerariamente, como parece acreditar o BC, dado os ganhos de produtividade significativos obtidos. Segundo a CNI, pela primeira vez desde 2000 o índice de produtividade foi positivo e atingiu 5,1%. O fato de que o atual nível de utilização ser o maior em quase uma década não deve ser tomado como um dado absoluto. Não há dúvida de que com a mesma capacidade utilizada as empresas nacionais conseguem produzir hoje bem mais do que produziam no passado recente. O Brasil cresceu mais de 5% no ano passado com inflação em queda e abaixo do teto fixado para o sistema de metas e com juro em ritmo de redução ao longo do ano. Não há no horizonte motivos suficientes para se acreditar que não se possa obter o mesmo também em 2005, diante da perspectiva de um crescimento menor. Outros dados não confirmam o grau intenso de preocupação do Copom. A recuperação da renda, que estimularia o crescimento depois que o ímpeto exportador perdesse um pouco o fôlego, teve um comportamento medíocre no ano passado e subiu 1,9% em dezembro (a média caiu 1,8% no ano ). A massa salarial ficou igualmente comportada, e se expandiu apenas 2,3%. O que deu alento adicional à demanda foi o aumento de 30% nas operações de crédito para pessoas físicas que, na ausência de movimentos mais vigorosos da renda, tende a esgotar seus efeitos, especialmente quando as sucessivas elevações da taxa Selic forem plenamente sentidas. Por outro lado, a Sondagem Conjuntural da Indústria, feita pela FGV, mostrou que 57% das empresas informaram que podem crescer sem dificuldades em 2005, a maior taxa desde 1969. O BC deveria, assim, interromper o ciclo de alta dos juros e não hesitar em aproveitar as melhores oportunidades para baixá-los.