Título: Estado de greve nas montadoras ameaça expansão
Autor: Olmos, Marli
Fonte: Valor Econômico, 06/09/2007, Empresas, p. B8
Carol Carquejeiro/Valor Feijóo, presidente do Sindicato do ABC: "Contraproposta é incompatível com o momento que essa indústria vive" Não são apenas os gargalos na cadeia produtiva que ameaçam o ritmo de vendas na indústria automobilística. A campanha salarial dos metalúrgicos do Estado de São Paulo acontece em plena euforia de vendas de veículos, momento propício para pedir aumento salarial. Durante mais uma rodada de negociação, os metalúrgicos mantinham ontem à noite o estado de greve nas montadoras e indústria de autopeças.
O aviso de greve a partir da próxima semana já havia seguido para os representantes das empresas quando uma nova reunião foi organizada ontem à tarde, na sede da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).
A entidade que representa as montadoras não se pronunciou. Os negociadores que falam em nome da Federação Estadual dos Metalúrgicos da CUT se dizem insatisfeitos com a primeira oferta das empresas, que traria um aumento real de 0,5% além da reposição da inflação. Ontem à noite, foi oferecido aumento de 1%. Hoje haverá uma nova reunião de negociações.
"Queremos um aumento salarial compatível com o momento que essa indústria está vivendo", destaca José López Feijóo, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Feijóo é dos principais negociadores de uma das bancadas com as quais as empresas estão negociando. Inclui as fábricas de São Bernardo do Campo e Taubaté, num total de mais de 40 mil empregados de empresas como Volkswagen e Ford .
Existe outra frente de negociação, que abrange as bases de metalúrgicos de São José dos Campos e cidades vizinhas, onde estão fábricas da General Motors, Honda e Toyota. Esses sindicatos são de tendências políticas mais radicais.
Segundo Feijóo, a primeira oferta de aumento real das montadoras é inferior à do setor de máquinas, de 1,74%, também recusada. As negociações abrangem ainda os trabalhadores da indústria de autopeças paulista. As negociações de ontem indicavam que a maior parte das empresas espera uma definição das discussões com as montadoras.
Nas negociações houve ainda impasse em torno da forma do aumento. As empresas queriam dar um abono, mas os representantes dos trabalhadores insistiram para o aumento tivesse formato de reajuste real, incorporado ao salário.
O cenário nunca foi tão favorável para o lado dos trabalhadores. Os próprios sindicalistas têm dificuldades para lembrar a data da última grande greve geral na região do ABC, por exemplo.
A última grande greve nas montadoras foi em 2000. Houve, porém, paralisações pontuais em 2003. Mas há tempos não se via um ritmo de produção tão frenético como o de hoje. As vendas de veículos no mercado interno somam crescimento de 27% no acumulado deste ano. Só em agosto houve um avanço de 32% na comparação com o mesmo mês do ano passado.
As linhas de montagem também pararam em 2002 por conta de uma greve dos fiscais da Receita Federal. No ano anterior o setor também parou como conseqüência de um movimento grevista dos portuários. Essas duas paralisações interromperam o fornecimento de componentes importados.
As greves dos últimos anos também serviram para mostrar a fragilidade da globalização e das alianças. A cadeia produtiva desse setor está interligada como nunca. A paralisação em uma única fábrica pode parar imediatamente outras, inclusive em outros países, como Argentina. Os metalúrgicos preparam assembléias para discutir a mobilização neste fim-de-semana.