Título: Japoneses investem no carro individual
Autor: Olmos, Marli
Fonte: Valor Econômico, 25/10/2007, Empresas, p. B8

Carros que transportam uma única pessoa, sem espaço para mais nada. Os protótipos de veículos voltados ao deslocamento individual surgem como a novidade da era em que cresce o debate em torno de saídas para reduzir consumo e emissões de poluentes.

O minúsculo meio de transporte já está nas pranchetas das áreas de engenharia da indústria automotiva japonesa. Protótipos desse tipo de veículo apresentados por montadoras como Suzuki, Toyota e Nissan foram os mais fotografados e filmados ontem, no primeiro dia de apresentação do salão do automóvel de Tóquio, que será aberto ao público somente no sábado.

O salão que sempre teve um estilo "high tech" ficou um pouco apático na sua quadragésima edição. De tanto se discutir a necessidade de criar carros econômicos e menos agressivos ao meio ambiente, a indústria automobilística parece agora pisar em ovos toda a vez que organiza uma feira para exibir suas máquinas, vistas hoje como os maiores vilões nas emissões de poluentes em todo o mundo.

Os protótipos dos modelos de transporte individual têm praticamente o tamanho de uma poltrona. O motorista se encaixa em algo que parece um casulo. O veículo foi concebido para trajetos curtos e com pouca velocidade.

A Suzuki, que montou em Tóquio um dos estandes mais voltados a esse novo conceito, lança uma nova idéia: um veículo de transporte individual chamado Pixy, voltado a pequenas distâncias, como a vila em que o condutor mora, e que pode ser encaixado dentro de um outro veículo maior, o chamado SSC. Capaz de carregar duas unidades Pixy, o sistema SSC seria usado para percorrer distâncias maiores, entre bairros. Enquanto o primeiro privilegia o uso individual, o segundo se volta ao compartilhamento do transporte em distâncias mais longas.

O Pivo 2, carro-conceito da Nissan, é tão pequeno que porta, painel e direção formam um único corpo. Para facilitar as manobras, a cabine gira 360 graus e as rodas, 90 graus. "Tudo isso não quer dizer que vamos abandonar a nossa paixão por performance", avisa o presidente mundial da Nissan, Carlos Ghosn. Será?

Foi a bordo do i-Real, nome do conceito de carro minúsculo da Toyota, que o presidente da companhia, Katsuaki Watanabe subiu ao palco para a apresentação dos produtos da marca. De maneira tranqüila, num novo padrão de chegada totalmente oposto aos antigos roncos de motores, Watanabe explicou que daqui em diante é preciso dirigir "pelas pessoas e pelo planeta".

A linha de produtos politicamente corretos apresentados no Japão é bem ampla. A Toyota também mostrou ontem protótipos de carros feitos com material muito mais leve que os tradicionais. O híbrido 1/X tem baterias que podem ser carregadas numa tomada elétrica simples. Com estrutura de plástico e fibra de carbono, o carro pesa três vezes menos que o Prius, híbrido mais famoso da marca.

A Toyota também criou novos desenhos e soluções, como vidros maiores, avançando na parte de baixo da porta. Uma solução para que carro e ocupantes possam interagir mais com o ambiente externo que, segundo o formato idealizado pela empresa, poderá conter mais itens de preservação da natureza.

Além dos mini carros, também estão em lugar de destaque no salão japonês automóveis compactos, menores que os nossos populares. Toyota e Volkswagen levaram para Tóquio dois carros-conceito que já haviam sido apresentados também no salão de Frankfurt. O Up Space, da montadora alemã, e o IQ Concept, da Toyota, medem menos de três metros e o banco traseiro acomoda dois adultos.

O conceito do IQ pode ser usado em algum carro voltado para os mercados de países emergentes no futuro. "Nós pensamos em ter um carro como esse no Brasil. Mas temos antes que testá-lo com os consumidores", afirma Olrich Hackenberg, um dos membros da direção de desenvolvimento mundial da marca Volkswagen.

O Salão de Tóquio leva o nome de internacional. Mas é uma feira dominada pelas marcas japonesas, assim como é o próprio mercado japonês. Grandes fabricantes americanos, como Ford e General Motors, assim como as francesas Peugeot e Renault, apresentam estandes modestos e não investem em lançamentos de peso. Também não há nenhum expositor chinês. Mas as marcas de estilo e tradicionais estrangeiras, como Mercedes-Benz, Audi, Ferrari e Lamborghini, que os japoneses gostam de importar, são tratadas como as grifes do salão de Tóquio.