Título: Sem garantia de oferta, mercado de GNV perde força
Autor: Santos ,Chico
Fonte: Valor Econômico, 03/10/2007, Empresas, p. B8

Hugo Aguiar, gerente da CEG: "Com a garantia dada às térmicas, os outros mercados ficaram prejudicados" A crise entre a Petrobras e o governo boliviano sobre as condições para o fornecimento de gás pelo país vizinho ao Brasil, a queda do preço do álcool combustível e o acordo da estatal com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) que assegura prioridade no fornecimento de gás natural para as usinas termelétricas se associaram para frear o crescimento explosivo que vinha caracterizando o mercado brasileiro de gás natural veicular (GNV).

Após crescer por três anos consecutivos a taxas superiores a 25%, a frota de veículos movidos a gás cresceu 10% de janeiro a agosto deste ano e não deve crescer mais de 15% no acumulado dos 12 meses que terminam em dezembro, segundo estimativas da Associação Brasileira de Gás Natural Veicular (ABGNV). A frota atual - com base em agosto - é de 1.459.773 veículos.

No Rio de Janeiro, Estado que concentra 42% da frota e um terço da oferta de GNV (em número de postos), a distribuidora Gás Natural (CEG) suspendeu as ligações de novos postos à sua rede desde o mês de julho. O gerente de grandes clientes da empresa, Hugo Aguiar, disse que a reabertura do mercado deve ocorrer este mês, mas em condições excepcionais.

Os novos contratos serão feitos com uma cláusula que permite interromper o fornecimento sem aviso prévio. Isso poderá acontecer sempre que a Petrobras for obrigada a reduzir a oferta para cumprir seus compromissos com o setor elétrico. "Com a garantia dada às térmicas, os outros mercados ficaram prejudicados", pondera Aguiar.

Com isso, 2007 deverá ser o ano com menor número de novos postos ofertando gás no Estado. Até agosto foram apenas 15 e a previsão da CEG é de que o número não ultrapasse 25 até dezembro. Até agora, o ano mais fraco havia sido 1999, quando a oferta do novo combustível foi iniciada, com 29 postos. O pico foi em 2003, com 103 novos postos. No ano passado foram credenciados 38 estabelecimentos. Atualmente o Rio de Janeiro oferece GNV em 453 postos de abastecimento, aproximadamente um terço dos 1.352 em funcionamento no país, segundo dados da ABGNV. Segundo Aguiar, existem 1,3 mil postos na fila para credenciamento.

Além de dispor de gás natural, originário dos poços da bacia de Campos, há mais tempo e em maior abundância, o Rio de Janeiro tem hoje a maior rede de distribuição de GNV do país e a maior frota de veículos movidos a gás (mais de 600 mil) graças, entre outros fatores, a um poderoso mecanismo fiscal criado pelo Estado: desconto de 75% sobre a alíquota do Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA).

Graças a esta facilidade, não é incomum que paulistas optem por registrar seus automóveis no Estado vizinho. Apesar dos novos tempos serem de escassez, a Secretaria da Fazenda do Estado do Rio de Janeiro informou que, no momento, não tem nenhum plano de modificar essa regra.

Segundo Aguiar, da CEG, a expansão menor da oferta de GNV no Estado está relacionada não apenas com a escassez, mas também com preocupações com o equilíbrio do mercado. Os números da distribuidora revelam que em 2001, quando foram credenciados 36 postos e o total acumulado fechou em 100, a média de vendas por posto era de quase 250 mil metros cúbicos por mês. Em 2004, quando foram ligados 100 postos e o total geral alcançou 340 unidades, a média de vendas caiu para 150 mil metros cúbicos/mês por posto.

A partir de 2005, quando o número anual de novos postos de GNV começou a cair gradativamente, o volume de vendas por posto retomou a curva ascendente. No primeiro semestre deste ano, a média por estabelecimento alcançou 190.400 metros cúbicos por mês. A expansão da oferta no Rio enfrenta também problema de rede, especialmente nos municípios que não são servidos por gasoduto.

Após construir uma unidade de compressão de gás para atender o município de Nova Friburgo, na região Serrana, a CEG entrou em "compasso de espera" em relação às iniciativas para atender outras cidades importantes, como Angra dos Reis, Teresópolis e Saquarema.

Mas Aguiar compara o cenário atual como "um vale" que deverá ser transposto no prazo de aproximadamente dois anos e meio. O cálculo está baseado nas iniciativas da Petrobras para resolver os problemas de oferta de gás, como a exploração acelerada dos campos de gás no Espírito Santo e na bacia de Santos (SP) e as construções de gasodutos importantes, como o Campinas-Rio e o Vitória-Rio, que é parte do Gasoduto do Nordeste (Gasene).

O diretor-superintendente da ABGNV, Antonio José Teixeira Mendes, entende que o futuro do GNV no Brasil está relacionado tanto à oferta como ao preço do produto. Ele informou, por e-mail, quer o setor "não se preparou para o choque de 2007" e disse também que o futuro do setor pode estar no aumento do uso do combustível no transporte comercial, em alternativa ao transporte de lazer.