Título: IPOs encontram investidores exigentes
Autor: Adachi, Vanessa ; Valenti ,Graziella
Fonte: Valor Econômico, 04/10/2007, Empresas, p. B3
Passado o pior da crise que tomou conta dos mercados mundiais em agosto, a Bolsa de Valores de São Paulo voltou a mostrar vigor, marcando mais de 60 mil pontos e quebrando recordes sucessivos, apesar da forte queda de ontem . Mas a história está bem diferente para as empresas que pretendem estrear no pregão brasileiro nos próximos meses.
"O mercado está aberto para companhias brasileiras, porém, o investidor está extremamente seletivo", afirma José Olympio Pereira, diretor do banco de investimentos do Credit Suisse no Brasil.
O ambiente desfavorável se reflete no fraco desempenho dos papéis que já estrearam no ano. Das 49 empresas que lançaram suas ações em 2007, 33 estão com performance inferior à do Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa). Dessas, 17 não só perdem do índice como acumulam variação negativa desde que começaram a ser negociadas . O capital estrangeiro, que voltou a ingressar com força na bolsa local, tem procurado as "blue chips", como Vale do Rio Doce e Petrobras.
Os bancos de investimento acompanham esses dados diariamente para medir o apetite dos investidores para novas emissões de ações. O fraco desempenho das novatas é um sintoma da perda de atratividade, ao menos momentânea, dos novos projetos.
Duas características que vinham sendo negligenciadas, em meio à euforia dos mercados, passaram a ser pré-requisitos nas novas operações: liquidez e qualidade do negócio. "A demanda é por empresas mais maduras, com menor risco de execução das metas apresentadas", diz Alexandre Bettamio, diretor do banco de investimentos do UBS Pactual.
Segundo Olympio Pereira, o tamanho das emissões (que define a liquidez do papel em bolsa) passou a ser fundamental.
Em setembro, por exemplo, a oferta da Satipel, de aproximadamente US$ 200 milhões, foi considerada pequena pelos investidores. No auge do mercado, ofertas de US$ 100 milhões chegaram a ser aceitas. Ontem, foi fechada a primeira oferta de outubro, a da seguradora Sul América, em meio a rumores de fraca demanda. O papel foi colocado a R$ 31, apenas um pouco acima do piso da faixa indicativa de preço, que era R$ 30. No total, foram vendidos R$ 674 milhões.
A preocupação com liquidez se reflete também no aumento recente da procura pelos serviços do chamado formador de mercado por parte das companhias novatas. Ao prestar esse serviço, o banco contratado garante a compra e a venda dos papéis.
-------------------------------------------------------------------------------- Na CVM, mais de 30 ofertas de ações estão na fila e há expectativa de chegada de outras 40 ainda neste ano --------------------------------------------------------------------------------
A despeito do cenário, a fila de empresas dispostas a abrir o capital não pára de crescer. "A economia real não foi afetada, não houve retração no mundo corporativo", diz Bettamio. A corrida para tentar garantir um lugar no mercado ainda em 2007 faz com que bancos e escritórios de advocacia ganham novos clientes a cada dia. A dúvida é se o mercado conseguirá absorver os papéis na mesma velocidade.
Na Comissão de Valores Mobiliários, há mais de 30 operações aguardando registro, que somam R$ 28 bilhões. "Tive notícia de que podem vir mais 40 para análise ainda neste ano", diz Carlos Alberto Rebello, superintendente de registro da CVM.
A crise impôs uma correção de preços e os investidores agora querem pagar menos pelos companhias estreantes. "As empresas que já entraram na bolsa começam a mostrar os primeiros resultados. Para comprar algo novo, sem ver o resultado, o investidor quer um desconto", diz Eduardo Favrin, diretor de renda variável do HSBC.
Algumas operações correm o risco de não sair por desistência dos empresários. A realidade de mercado mudou, mas a maioria deles criou uma expectativa de preço baseada nas avaliações feitas antes da crise. A rede de farmácias Droga Raia, por exemplo, já teria sinalizado que aguardará um momento melhor.
Os investidores também colocaram uma lupa sobre características menos ortodoxas de algumas operações. Os empréstimos concedidos pelos bancos coordenadores pré-IPO, por exemplo, não são mais tão bem vistos. "Se o empréstimo fizer sentido dentro da história de crescimento da empresa, tudo bem, mas se for apenas para engordar os números ou refinanciar dívidas, o investidor não quer", diz o diretor de um banco de investimentos.
A seletividade dos investidores tem feito com que as áreas de vendas dos bancos busquem um novo perfil de compradores, que fuja aos tradicionais hedge funds, que alimentaram o boom de IPOs até agora. "É preciso buscar outros bolsões de dinheiro, de investidores poucos expostos a Brasil e América Latina", diz Bettamio. De acordo com ele, os fundos setoriais são uma opção a ser explorada.
No caso da Sul América, fechada ontem, o comentário no mercado financeiro é que a demanda foi garantida por fundos europeus especializados em seguros - teriam absorvido 90% dos papéis.
Apesar da maior exigência dos investidores, o diretor do UBS está otimista com as perspectivas do mercado. "Estamos em road show e percebemos que há interesse, não como antes, mas há", diz Bettamio. De acordo com ele, o mercado apenas começa a reabrir e há uma lista de companhias que devem efetivamente vir a mercado ainda em outubro. Rebello, da CVM, diz que já há seis operações marcadas para este mês e que o número deve crescer.