Título: Poder de compra se mantém, apesar de alimento mais caro
Autor: Salgado, Raquel
Fonte: Valor Econômico, 21/09/2007, Brasil, p. A3

A forte alta dos preços dos alimentos pesou no bolso no consumidor brasileiro, mas não diminuiu seu poder de compra. A redução dos gastos com transporte, energia e combustíveis foi capaz de aplacar o aumento dos alimentos. Com isso, a renda disponível para gastos não-essenciais - e que pode ser comprometida na aquisição de bens duráveis, vestuário, calçados etc - ficou estável em relação ao ano passado.

Em agosto deste ano, o peso dos alimentos na cesta de compras ficou em 14%, acima dos 13,35% do ano passado. Já o gasto com transportes, que tem o maior peso, caiu de 21% para 20,5%. Movimento semelhante foi verificado nas tarifas de energia elétrica e combustíveis que antes, juntos, representavam 5,18% do consumo e passaram a ter um peso de 4,84%. Os cálculos se baseiam na estrutura de ponderação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Com isso, a chamada renda disponível, que é aquela que sobra depois dos gastos com aluguéis, comida, tarifa e transportes, manteve-se no patamar de 37,7%. O crescimento marginal deste rendimento, no entanto, continua ocorrendo, mas em menor magnitude do que no ano passado. Pelos cálculos de Sergio Vale, da MB Associados, nos 12 meses terminados em julho deste ano (último dado disponível), a alta da renda disponível estava em 5,4%. Em julho do ano passado, na mesma comparação, a elevação era de 6,6%. Já a renda total sofreu desaceleração menor: crescia a um ritmo de 5,7% em 2006 e agora está em 5,4%.

Embora o emprego continue crescendo e a qualidade das vagas abertas tenha melhorado, o menor aumento do salário mínimo e os níveis mais altos de inflação não permitiram o mesmo incremento na renda do que o visto no ano passado. O aumento real (acima da inflação) do mínimo em 2006 foi de 13%, enquanto neste ano a alta ficou em 5,3%. Ao mesmo tempo, entre janeiro e agosto do ano passado a inflação medida pelo IPCA acumulou alta de 1,78% e, neste ano, a variação já está em 2,8%.

Os dados divulgados ontem pelo IBGE mostram que o incremento na remuneração média do trabalhador ainda ocorre, mas tem perdido bastante fôlego. Em agosto, o rendimento médio cresceu 1,2% na comparação com igual mês de 2006. Em julho, a alta havia sido de 2,5%, em junho de 2,7%, e em maio, 3,92%. Em relação a julho, o recuo foi de 0,5% e o rendimento passou a valer R$ 1.109,40. O recuo na renda, na comparação com igual mês do ano anterior, começou em abril. "Foi mais forte nos últimos meses por conta da explosão de preços dos alimentos", diz Bráulio Borges, da LCA Consultores. Só no acumulado dos meses de junho a e agosto, os preços de alimentos e bebidas subiram 5%, enquanto o IPCA avançou 1%.

"O peso dos alimentos aumentou, mas a tendência é que daqui para frente este movimento se reverta, pelo menos em parte", espera Otávio Aidar, economista da Rosenberg & Associados. Com os preços agrícolas em alta, o que se vê no setor é um incentivo maior ao plantio de diversas culturas e ganhos de produtividade. "Já há muita gente produzindo mais leite e plantando mais grãos, como soja, além da cana", comenta Aidar.

Sergio Vale, da MB Associados, acredita que a preocupação maior não deve recair sobre alimentos, mas sim sobre os bens que não fazem parte dos gastos essenciais, como alguns serviços e produtos semiduráveis.

Vale alerta que as empresas têxteis, do vestuário e de calçados têm investido muito pouco nos últimos anos, porque o câmbio valorizado dificultou as exportações. Ao mesmo tempo, a utilização da capacidade instalada desses setores cresceu muito. "Se as importações fossem suficientes para suportar o aumento de demanda, não veríamos um aumento tão significativo da utilização da capacidade."

O crescimento mais tímido do rendimento e uma inflação mais pressionada tendem a reduzir o ímpeto da demanda, segundo Borges, da LCA Consultores. Ela acredita que este movimento não significa retração e que será visto com bons olhos pelo Banco Central. "Ele está muito preocupado com a evolução da atividade doméstica, por isso é bom que a demanda dê uma arrefecida agora." Por causa da forte alta dos preços de alimentos, a LCA revisou para baixo sua projeção para o consumo das famílias. A expectativa de 2007, que era de alta de 5,8%, foi para 5,5%. A de 2008 caiu de 5,1% para 4,6%.