Título: Colômbia quer acompanhar Brasil em acordos comerciais
Autor: Leo , Sergio
Fonte: Valor Econômico, 09/11/2007, Especial, p. A16

A Colômbia quer acompanhar o governo brasileiro nas negociações de livre comércio do Mercosul com países da África, Ásia e Oriente Médio, disse ao Valor o presidente Álvaro Uribe. "Queremos ir com o Brasil nesses acordos; queremos poder acompanhar esses acordos que o presidente Lula está fazendo", insistiu Uribe. O governo colombiano busca alternativas enquanto o Congresso dos EUA atrasa a aprovação do acordo de livre comércio entre os dois países, sob a alegação de que a Colômbia desrespeita os direitos humanos.

"Continuam dificuldades no Congresso dos EUA para o acordo de livre comércio, mas tenho fé, insistiremos até que se superem essas dificuldades", disse o presidente colombiano, cujos assessores atribuem à campanha eleitoral nos EUA a resistência ao acordo.

Na semana passada, na primeira de uma série de visitas de autoridades americanas à Colômbia, a representante comercial americana, Susan Schwab, ciceroneou um grupo de republicanos e democratas por cidades colombianas, para mostra as condições de trabalho e segurança no país. Prometeu, enquanto não há aprovação do acordo no Congresso, estender até dezembro de 2008 o programa de preferências comerciais entre os dois países, que permite a venda de produtos colombianos com tarifas mais baixas ou inexistentes.

Uribe afirmou que a aproximação com o Brasil, no esforço para ampliar acordos comerciais com outros países em desenvolvimento é acompanhada por outras negociações, como a iniciada com União Européia. "Estamos muito próximos de um acordo com o Canadá", disse. Segundo o vice-ministro de Relações Exteriores da Colômbia, Camilo Reyes, a aproximação com os projetos de acordo comercial de Lula faz parte da estratégia da Colômbia de apoio à integração do continente, por meio da União das Nações Sul-Americanas (Unasur), cujos presidentes Uribe reunirá, em janeiro, na cidade de Cartagena.

Em meio a rumores de que estimula mudanças na Constituição para reeleger-se mais uma vez, incomodado pela proximidade de parlamentares de sua base de apoio com líderes paramilitares submetidos a inquérito judicial e derrotado há uma semana, em sua campanha para eleger o prefeito de Bogotá, segundo posto mais importante na política colombiana, Uribe não quis falar de política e evitou dar entrevistas nos últimos dias. Abriu uma exceção, porém, apenas para comentar um assunto que o deixa sorridente e entusiasmado: as medidas do governo para atrair investimentos e o interesse em aproximação com o Brasil, país que, neste ano, está em segundo lugar entre os maiores investidores na Colômbia.

"Enquanto outros países da América Latina estão se voltando ao estatismo, na Colômbia estamos dando todas as oportunidades ao investimento privado", compara, numa referência pouco sutil à onda esquerdista nos países da vizinhança andina, Venezuela, Equador e Bolívia. Ele lembra que, em cinco anos, a taxa de investimentos privados em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) subiu de 12% para 27%. "É o país que mais investimentos per capita recebeu na América Latina", propagandeia o presidente, que espera registrar US$ 8 bilhões de investimento direto estrangeiro em 2007.

Na sexta-feira, o presidente colombiano abriu espaço na agenda para atender o governador do Tocantins, Marcelo Miranda, que queria propor a Uribe uma audaciosa parceria na produção de etanol, uma das prioridades do governo colombiano. Miranda, um dos governadores próximos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, buscou apoio de Uribe para o projeto de construção de eclusas no rio Tocantins, com as quais quer viabilizar uma hidrovia por onde escoar cana-de-açúcar para abastecer usinas de etanol na Colômbia, país não sujeito às tarifas cobradas pelos EUA do álcool brasileiro. Uribe ouviu atento a proposta e prometeu estudar o assunto.

Ao cônsul honorário da Colômbia no Brasil, o empresário Carlos Amastha, que acompanhou Miranda e é presidente da Skipton, holding com a maior rede de educação a distância do Brasil, Uribe disse que aprovará de imediato qualquer projeto na área de educação para a Colômbia. "Todo esquema de educação virtual está autorizado." Quando deixar o governo, ele próprio quer atuar na área de educação universitária à distância, afirmou, sem mencionar o debate sobre sua possível tentativa de se reeleger novamente, alimentada nas semana passada quando disse que poderia concorrer de novo em 2010, em caso de uma "hecatombe", se não houver alternativa entre os aliados.

"Precisamos de investimento; aqui têm chegado muitos investimentos do Brasil: da Petrobras, da Votorantim, da Gerdau, do grupo Sinergy, que comprou a Avianca; a Vale do Rio Doce [CVRD], está chegando", lista Uribe, de memória, para o Valor. "Queremos o investimento estrangeiro, e lhe damos todas as garantias."

As garantias, diz ele, são firmadas em contrato: neste ano começa a valer a nova figura criada por ele, o "contrato de estabilidade jurídica", pelo qual investidores podem estabelecer formalmente com o governo o pacto de que não será alterada nenhuma norma legal ou regulamento existente que tenha influenciado a decisão de investir. "É uma lei muito importante, que autoriza o governo a firmar um pacto de governabilidade com os investidores", defende o presidente colombiano. "Os investidores devem sentir-se na Colômbia como em uma segunda casa."

"Hoje, cada dólar que se investe na Colômbia tem isenção tributária de 40%", diz ele, ao recitar as vantagens oferecidas para atrair os investidores e recitar os avanços no controle da economia. "Temos usado o instrumento tributário para fomentar os investimentos." Uribe lembra que a Colômbia equilibrou o déficit consolidado do governo e que o déficit nas contas federais baixou em seu governo de 6,2% a 3,3% do PIB. "Embora nosso endividamento ainda esteja em 28% do PIB, nós o encontramos em 50%."

Ele aponta como fator de atração investimentos a chamada política de "segurança democrática", pela qual o governo desmobilizou grupos paramilitares (com uma negociação envolvendo abrandamento de penas) e reprime duramente a guerrilha. Mas a violência no país ainda não é ameaça aos investidores? Ao ouvir a pergunta, Uribe, educadamente, sempre sorrindo, dá por terminada a entrevista, e levanta-se. "Não ganhamos ainda, mas estamos ganhando", diz. "É preciso perseverança, e por isso tem de haver um presidente combativo aqui; se fosse um presidente doce, já o teriam comido."