Título: Corretoras vão embolsar R$ 10 bi
Autor: Silva Junior, Altamiro; Valenti, Graziella
Fonte: Valor Econômico, 11/10/2007, Finanças, p. C1

A abertura de capital da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) vai abarrotar os cofres das corretoras de dinheiro. As duas ofertas de ações - mais a venda de 10% do capital da BM&F para a empresa americana General Atlantic por R$ 1 bilhão - devem render mais de R$ 10 bilhões, recursos que vão direto para as corretoras e bancos, únicos acionistas das duas bolsas.

Até agora, para negociar no pregão da Bovespa e da BM&F, eram exigidos títulos patrimoniais. As corretoras compravam estes títulos que agora foram convertidos em ações ordinárias (ON, com direito a voto) das duas bolsas. São essas ações que vão à venda na abertura de mercado das bolsas.

O lançamento de papéis da Bovespa já é encarado pelo mercado como a operação "mais quente" do ano, marcado por mais de 50 ofertas até agora. Só ele deve movimentar cerca de R$ 5 bilhões. O da BM&F também gera enorme expectativa e deve girar em torno de R$ 4 bilhões, sem contar o negócio com a General Atlantic.

As corretoras não falam sobre o assunto, por causa da lei do silêncio imposta pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Mas no mercado comenta-se que, após o IPO das bolsas, o setor vai passar por um processo de consolidação. A expectativa é que as fusões e aquisições ocorram em um futuro próximo por conta da capitalização das corretoras. Fala-se ainda que as instituições resultantes do processo de consolidação seriam as próximas candidatas a abrirem o capital.

Os grupos mais beneficiados pelo IPO, no caso da Bovespa, serão os estrangeiros, como Credit Suisse e UBS Pactual, e os ligados a grandes bancos nacionais.

No caso das corretoras internacionais, a exigência de no mínimo 12 títulos para operar no pregão - o dobro do pedido às nacionais - explica a concentração de papéis nestas instituições.

Já no caso dos bancos brasileiros, foi o intenso processo de consolidação dos últimos anos que levou instituições privadas a acumularem grande quantidade destes títulos. Exemplo disso é o caso de Itaú e Santander, únicos detentores de mais de 5% do capital da Bovespa, cada um, por causa de várias aquisições de outros bancos no passado.

Para os bancos médios, o IPO das bolsas será uma oportunidade de capitalização praticamente sem custos. Algumas destas instituições, que abriram o capital recentemente, chegaram a citar, nas apresentações aos investidores, a perspectiva deste ganho. Houve casos de bancos que transferiram a posse dos títulos de suas corretoras para seu patrimônio. O Banco Paulista, por exemplo, que prepara sua listagem na bolsa em 2008, poderá se beneficiar dos recursos que virão da venda dos títulos da Socopa, corretora do grupo, que deve receber R$ 23,5 milhões.

Os recursos das duas ofertas serão especialmente importantes para as corretoras independentes, pois não contam com o suporte de um grande banco. A Tov Corretora, por exemplo, deve embolsar R$ 76,5 milhões.

Com esse dinheiro extra, poderão modernizar suas operações e capacitar seus profissionais.

Algumas corretoras da BM&F, como a Pioneer, têm planos de usar o dinheiro para montar bancos de câmbio.

Além dos recursos recebidos logo na estréia das duas bolsas no pregão, os bancos e as corretoras ainda ficam um tesouro precioso. Nos próximos 12 meses, em etapas de 180 dias, estarão livres para se desfazer do restante de suas ações. No caso da Bovespa, neste primeiro momento, será vendido 25% do capital. Cada instituição vai vender uma fatia proporcional ao que detém. O mesmo aconteceu com a venda de 10% do capital da BM&F para a empresa americana General Atlantic, por R$ 1 bilhão.

A venda de ações das bolsas também criará novos milionários. É o caso de Roberto Lombardi de Barros, que sozinho deve levar cerca de R$ 45 milhões. Velho conhecido do mercado, Lombardi detinha um título de operador especial. Essa figura existe com a finalidade de proporcionar liquidez ao mercado com ofertas constantes de compra e venda. Isentos da taxa de corretagem, ganhavam mesmo com o giro dos papéis. Por sua vez, a família Masagao, do Banco Indusval, deve levar R$ 7,5 milhões.

Esses valores foram calculados contando que as ações da Bovespa sejam vendidas a R$ 17, na média do intervalo sugerido pelos bancos coordenadores. Caso saia no teto de R$ 18,50, os ganhos serão ainda maiores. Não há expectativa de que o processo movido pelo investidor Naji Nahas, que pede indenização de R$ 10 bilhões à Bovespa e à BM&F, atrapalhe o apetite dos investidores.