Título: Turbulências não saíram do horizonte dos mercados
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Fonte: Valor Econômico, 16/10/2007, Opiniao, p. A12
Em meio a forte instabilidade, o Fed mudou sua política monetária e cortou os juros americanos em 0,5 ponto em 18 de setembro. Precedida por medidas para sustentar a liquidez dos mercados, então ameaçada pela paralisação de negociação de papéis que sustentam os negócios no dia-a-dia das empresas, a decisão do banco central americano foi uma polêmica medida de urgência. A frieza da ata da reunião do Fed, divulgada na semana passada, não traduz o nervosismo que cercou a reunião de seu Comitê de Política Monetária nem os graves problemas que estavam em jogo. Ela não só configura aposta implícita na eficácia da redução dos juros para acalmar os mercados como traça um cenário moderadamente otimista para o futuro, onde não está garantido de antemão nenhum novo corte , a menos que ocorra um forte recuo da economia dos EUA.
Relutantemente, o Fed inverteu sua avaliação anterior, a de que os riscos para a economia advinham mais da inflação do que da perda de ritmo das atividades econômicas. O turbilhão que se abateu sobre o mercado após a crise do subprime acendeu o sinal vermelho de que a contração de crédito poderia se estender a empresas e credores saudáveis. A ata constata moderação da inflação - o núcleo do índice de inflação ao consumidor recuou de 2,9% em setembro de 2006 para 2,1% agora - e reduz a previsão de crescimento dos EUA em 2008.
Um mês depois, os mercados se acalmaram, as bolsas voltaram a bater recordes sem que um novo pico de nervosismo tenha aparecido - por enquanto. Há duas certezas. Primeira, a de que os prejuízos com o crédito subprime ainda não apareceram inteiramente e deverão fazê-lo na fornada de balanço das instituições financeiras agora. A iniciativa de Citibank, Bank of America e JP Morgan, com o estímulo do Tesouro americano, de criar um fundo de US$ 75 bilhões para adquirir papéis lastreados por hipotecas, busca evitar que as instituições com títulos invendáveis ou de muito baixo valor tenham de desfazer dos papéis a qualquer preço e de uma só vez e pôr o salgado preço das imprudências cometidas na contabilidade. A segunda certeza é a de que o mercado de construção residencial ainda vai recuar mais e levar os preços ainda mais para baixo. As vendas se encontram no ponto mais baixo em dez anos e os estoques de casas ainda sobem nos EUA.
Por outro lado, as atividades produtivas não foram severamente afetadas pela crise criada pela ala mais especulativa dos mercados. As empresas americanas estão com estoques baixos, boa margem operacional, pequena exposição a dívidas de curto prazo e, capitalizadas, com baixa necessidade de crédito.
Os gastos com bens de capital e alta tecnologia continuam robustos, enquanto que nos setores dependentes da construção de residências a redução do ritmo de atividades prossegue. A lucratividade expressa na safra de balanços do terceiro trimestre é, no geral, fraca - uma média de 2,2% de avanço, ante 8% nos dois trimestres anteriores. A maioria dos analistas, porém, prevê que no quarto trimestre ela volte à casa dos dois dígitos. O desemprego, após o susto das estatísticas de agosto, depois revistas, mantém-se em 4,6%.
O teste do futuro da economia nos EUA passa em primeiro lugar pelo ânimo do consumidor. Embora menor, os gastos de consumo vão bem. Após subirem 3,4% em 2006, estão agora em 2,7%, um ritmo bom para os que temiam forte erosão da renda diante da crise imobiliária. Com salários em alta e desemprego estável, mais os novos recordes na bolsa, a renda pessoal parece ter absorvido o choque das hipotecas.
Além disso, a desvalorização do dólar tem propiciado forte ímpeto exportador nos EUA, o que reduziu o déficit comercial em agosto ao menor nível dos últimos sete meses. As vendas a partir dos EUA crescem a um ritmo duas vezes superior ao das importações - 15% e 7%, respectivamente. O avanço americano se dá às custas dos parceiros desenvolvidos. Em relação às moedas fortes, o dólar desvalorizou-se 33% desde o início de 2002, mas apenas 6% em uma cesta de moedas que abrange 45% do fluxo comercial. O risco de uma inflação adicional via importações é pequeno, assim como o de um repique inflacionário com a economia na zona da expansão moderada. Assim, o Fed só cortará mais os juros ante sinais evidentes de enfraquecimento adicional da economia.