Título: Brasil capta US$ 2,26 bi no exterior em 2005
Autor: Cristiane Perini Lucchesi
Fonte: Valor Econômico, 01/02/2005, Finanças, p. C1

O governo federal brasileiro aproveitou ontem o dia de forte otimismo nos mercados financeiros internacionais e fechou captação de US$ 1,25 bilhão, pelo prazo de vencimento em 20 anos. O Bradesco também lançou bônus de US$ 50 milhões. No total até agora, emissores brasileiros já lançaram US$ 2,26 bilhões neste ano em janeiro, para liquidação em janeiro e fevereiro, mostrando que o primeiro mês do ano mantém sua tradição sazonal de ser forte em captações externas. Mas o total lançado até agora é menor do que os US$ 3,5 bilhões que entraram efetivamente no caixa de empresas, bancos e governo brasileiro em janeiro do ano passado. "O Brasil escolheu um bom dia para emitir papéis no mercado de dólares", afirma Arturo Porzecanski, economista-chefe para mercados emergentes do ABN-AMRO. Dois países importantes, a Rússia e o México, tiveram sua nota de crédito externo elevada pela Standard & Poor's, o que provocou uma alta generalizada nos preços dos papéis da dívida externa de todos os emergentes. Com isso, os investidores internacionais absorveram a oferta extra de títulos do Brasil sem problemas e o mercado se comportou de maneira estável, com o risco-Brasil medido pelo índice EMBI + do JP Morgan ficando em 417 pontos básicos, o mesmo nível de sexta-feira. A Rússia agora se tornou "investment grade", uma espécie de selo de que o investimento não é especulativo, também pela S&P -já tinha o selo das duas principais agências concorrentes, a FitchRatings e a Moody's. Investidores mais conservadores passaram a comprar os papéis russos. Mas os investidores interessados em risco e retorno maior venderam os títulos da Rússia e se voltaram para os bônus do Brasil.

As eleições no Iraque também deixaram os investidores internacionais mais tranqüilos. "Uma porta se abre para que os Estados Unidos possam retirar suas tropas do país no futuro", comenta Porzecanski. Segundo ele, o presidente Lula também causou "boa impressão" na Suíça e pode ter ajudado a Colômbia e a Venezuela a terem entrado em acordo, acredita o analista. "Se o Lula realmente colaborou para acalmar os ânimos entre Colômbia e Venezuela, merece os parabéns", afirma o analista. A inflação brasileira preocupa por sua persistência, acredita Porzecanski. Mas o Banco Central brasileiro, ao indicar que vai subir mais os juros, traz boas notícias para os investidores no mercado de renda fixa. "O mercado só não gostaria de ver a economia brasileira deixar de crescer no mínimo no ritmo de 5% ao ano", afirma ele. O dólar está mais estável em relação ao euro depois de se valorizar do nível recorde de baixa de US$ 1,36 por euro no final do ano passado para US$ 1,30 por euro. "A estabilidade maior do dólar ajuda o Brasil a emitir nessa moeda e a definir preço para seus títulos", diz Porzecanski. "A captação de ? 500 milhões feita neste ano era pouco: o Brasil precisava acessar logo o grande mercado de dólares", afirma ele. Os juros dos títulos do Tesouro americano, depois da volatilidade no início de 2005, estão em torno de 4,13% ao ano para os papéis de vencimento em dez anos, o que mostra tranqüilidade no mercado internacional, acredita. As bolsas americanas, depois de um janeiro fraco, registraram fortes altas ontem, contribuindo para o otimismo. O índice Dow Jones, das ações mais negociadas, subiu 0,6%, e o Nasdaq, das ações de alta tecnologia, 1,31%. "Foi uma boa idéia do governo abrir a semana com essa emissão", afirma o analista. A Companhia Siderúrgica Nacional foi a única empresa não-financeira brasileira a emitir títulos neste ano, no valor de US$ 200 milhões, para investimento. O resto foi emitido pelo governo federal e pelos bancos. Ontem, foi a vez do Bradesco, que lançou US$ 50 milhões pelo prazo de vencimento em dois anos e onze meses se dispondo a pagar juros de 4,375% to 4,625% ao investidor. Já os papéis do Tesouro Nacional com vencimento em 2025 saíram com rendimento de 8,90% ao ano, dentro da curva de juros do país no mercado secundário, segundo especialista. O Tesouro confirmou a captação e o rendimento, mas informou que todos os detalhes da captação só serão conhecidos hoje. Os líderes foram o UBS e o Deutsche Bank.(Colaborou Alex Ribeiro, da Sucursal de Brasília)