Título: Expectativa de inflação ainda resiste e não cede à política de juro alto do BC
Autor: Alex Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 01/02/2005, Finanças, p. C2
Um dia após o Banco Central acenar com uma política monetária ainda mais restritiva, as expectativas de inflação do mercado financeiro voltaram se deteriorar. Subiram na sexta-feira passada para 5,74%, ante 5,7% uma semana antes, no levantamento do BC que inclui cerca de 100 departamentos econômicos de instituições financeiras e empresas. A nova alta nas expectativas surpreendeu alguns analistas econômicos, que esperavam um refluxo - ou pelo menos a estabilidade - das projeções. Alguns deles interpretaram a alta como um simples efeito estatístico. Outros acham que o BC, na sua ata, acabou contaminando negativamente as expectativas inflacionárias do mercado financeiro. Sandra Utsumi, do BES Investimentos, atribui a deterioração da expectativa a um efeito estatístico. "Leva algum tempo para que todos os analistas de mercado assimilem as novas informações, como a ata do Copom", disse. "Provavelmente, as projeções coletadas na sexta-feira passada ainda estavam influenciadas pelo IPCA de dezembro e pelo IPCA-15, que vieram altos." Ela chama a atenção para o fato dos Top 5 de médio prazo (grupo de instituições que mais acertam suas previsões) terem baixado suas projeções medianas, de 5,75% para 5,64%. "Normalmente, os Top 5 são mais ágeis e incorporaram as informações contidas na ata." Os Top 5 não são mais ágeis só para revisar a expectativas inflação - os juros também. Os Top 5 de curto prazo já incorporaram nas suas projeções a sinalização do BC de uma política monetária mais dura, e esperam uma alta de 0,5 ponto percentual nos juros; já o conjunto de 100 analistas projeta uma alta de 0,25 ponto. Adauto Lima, do WestLB, atribui o movimento a um pequeno ajuste da inflação de curto prazo - período em que a política monetária tem efeitos muito reduzidos sobre a inflação. Para janeiro, afirma, o mercado reduziu a expectativa de 0,61% para 0,6%; e, para fevereiro, houve alta de 0,6% para 0,65%, em virtude de uma expectativa de maiores aumentos do grupo educação, com a volta às aulas. Em termos líquidos, afirma, a alta é de 0,04 ponto, exatamente a revisão para o IPCA no ano. "Embora a alta se deva a fatores de curto prazo, de qualquer forma as expectativas vêm mostrando resistência." Elson Teles, da Fides Asset Management, também atribui a alta a fatores de curto prazo - além do item educação, lembra a expectativa de reajustes das passagens de ônibus em São Paulo. Mas ele pondera que a deterioração pode estar refletindo também o tom pessimista que o BC imprimiu na ata. "O BC disse que tem dúvidas se o seu próprio modelo é capaz de, nas condições atuais, projetar a inflação", afirma. "Se nem o BC está seguro dos seus modelos de projeções, o mercado tem razão em se tornar um pouco mais pessimista." Alex Agostine, da GRC Visão, interpreta a alta das expectativas como uma resposta a choques de oferta que a economia está sofrendo - o mais recente, afirma, é a alta do minério de ferro. "Esse tipo de inflação não responde a movimentos na taxa de juros." Os analistas econômicos se tornaram mais coesos nas projeções. É o que mostra o desvio padrão, um indicador de dispersão: na sexta-feira, ele estava em 0,37%, abaixo dos 0,47% de uma semana antes e dos 0,6% observados em setembro, quando o BC iniciou o ciclo de alta de juros.