Título: Toyota define fábrica no Brasil só em 2008
Autor: Olmos, Marli
Fonte: Valor Econômico, 26/10/2007, Empresas, p. B6

A paciência oriental é muito maior do que poderiam supor os governadores brasileiros que disputam o tão aguardado investimento da Toyota numa nova fábrica no Brasil. O presidente mundial da montadora japonesa, Katsuaki Watanabe, disse ontem que somente daqui um ano mais ou menos é que ele vai tomar uma decisão a respeito desse assunto.

Há uma certa ansiedade entre os integrantes da cúpula da direção da montadora em torno da decisão. Todos, incluindo Watanabe, sabem que para tirar a General Motors da liderança do mercado mundial de veículos a Toyota precisa produzir e vender mais nos mercados emergentes. Essas são as únicas regiões do planeta que registram hoje crescimento expressivo de vendas de automóveis.

Quando decidir pelo investimento, a Toyota não estará sozinha. Executivos envolvidos na operação esperam que uma quantidade significativa de fabricantes de autopeças japoneses acompanhem a montadora e invistam em filiais brasileiras voltadas ao abastecimento da montadora.

Se por um lado as declarações de Watanabe protelam por mais um tempo o esperado investimento, por outro o executivo garantiu que os planos de crescimento da marca japonesa no mercado brasileiro estão mantidos. A Toyota almejava chegar em 2010 com participação de 10% do mercado, o triplo da atual. O presidente só não explicou a fórmula para conseguir construir uma fábrica e desenvolver o projeto do produto e planejamento de fornecimento de peças no prazo de cerca de um ano.

Cercado por seus principais executivos, Watanabe preparou um jantar para receber jornalistas de todo o mundo ontem à noite, o segundo dia de apresentação do salão do automóvel de Tóquio, que será aberto ao público amanhã.

Em meio aos suhimen que freneticamente enrolavam bolinhos de arroz para 400 convidado, Watanabe circulava de um lado para outro para atender os jornalistas. Cada grupo de países divididos por regiões teve direito a seis minutos de conversa com Watanabe. O sorridente executivo da empresa, que se prepara para ser o maior fabricante de automóveis do planeta, atendeu gente da Europa, de diversos países da Ásia e Américas. Watanabe passou duas horas dando entrevistas desta forma. Com a ajuda de duas tradutoras, falou reservadamente com os grupos sobre as peculiaridades de cada país e ainda posou para fotografias com a delegação da China, a mais numerosa, e Tailândia.

Watanabe percorreu um percurso pré-definido para atender a todos os jornalistas. Os 10 principais executivos da companhia se espalharam no salão, em pontos diferentes. Tokuichi Uranishi, um dos vice-presidentes executivos, responsável pelo planejamento das operações fora do Japão, reconhece que a participação da Toyota no crescente mercado brasileiro é muito tímida. E que a marca precisa investir no crescimento na região. Ele também gostaria que o sucesso do aproveitamento do etanol no Brasil se expandisse muito mais em outros mercados.

Em meio a esse ensaiado arranjo, quase despercebido, estava o executivo que carrega o sobrenome do fundador da companhia. No comando da vice-presidência que engloba as áreas de planejamento global, vendas no Japão e serviço de qualidade ao consumidor, Akio Toyoda desenha no papel ideogramas japoneses para explicar a diferença entre o nome da família - Toyoda - o da empresa Toyota. Foi para simplificar a escrita, já que na língua japonesa, a grafia é praticamente a mesma.

Neto do fundador da montadora e bisneto do fundador da tecelagem que deu origem à empresa, Toyoda concorda que a direção da companhia espera um robusto crescimento dos mercados emergentes. Mas, no momento, ele parece mais atento aos debates sobre a capacidade de os automóveis exercerem o papel de meio de locomoção sem agredir tanto o ambiente e não ser um transtorno urbano: "Não adianta querer usar o carro para ir à uma estação de trem e dali se locomover se você não consegue encontrar um lugar sequer para parar e sair do veículo."