Título: Turquia ameaça atacar, mas não deve invadir o Iraque
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Fonte: Valor Econômico, 18/10/2007, Internacional, p. A14

O Parlamento da Turquia autorizou ontem o governo a lançar uma ofensiva contra guerrilheiros curdos que operam no norte do Iraque. Uma invasão turca poderia desestabilizar de vez o Iraque e criar uma crise regional. O temor fez disparar o preço do petróleo, que ontem chegou perto de US$ 90 o barril. Mas é pouco provável que a invasão aconteça. O governo turco diz preferir uma solução negociada, está dando o tempo necessário para isso e não quer prejudicar os EUA, um importante aliado.

É um jogo de pesos e contra-pesos. A Turquia diz que pode invadir o norte do Iraque atrás de separatistas curdos; obtém autorização de seu Parlamento, para dar um ar legal e soberano à ação. Os EUA pedem que os turcos não façam isso, para evitar uma convulsão na única área do Iraque que vive em relativa tranqüilidade. O governo turco diz que pode não agir, que só está se precavendo. Irã e Síria não querem a invasão. Enquanto isso, o petróleo sobe, por causa da especulação de que a região toda pode entrar num redemoinho ainda maior de violência.

Parte dos territórios da Turquia e do Iraque está numa área chamada de Curdistão, que possui cerca de 530 mil quilômetros quadrados e também abrange partes da Síria, Azerbaijão e Armênia. No Curdistão, a maioria da população é curda (grupo étnico não árabe).

Os curdos se consideram o maior grupo étnico sem Estado do mundo e, desde 1984, o PKK reivindica um território autônomo. A Turquia é um dos países no qual o PKK mais atua, e os turcos afirmam que os rebeldes se escondem no norte do Iraque, de maioria curda.

A Turquia acusa o PKK de realizar atentados na Turquia e cruzar a fronteira para se abrigar no Iraque. E diz que as autoridades iraquianas toleram as atividades do PKK. O governo turco culpa os rebeldes pela morte de mais de 30 mil pessoas desde que o grupo começou sua campanha armada. A crise atual foi detonada pela morte de 13 soldados turcos num suposto ataque do PKK há dez dias.

A autorização para a ação militar foi aprovada por ampla margem (507 votos contra 19) no Parlamento turco. A medida, que vale por um ano, autoriza uma ofensiva no norte do Iraque para combater rebeldes do PKK (o Partido dos Trabalhadores do Curdistão). O governo já enviou tropas à fronteira.

O presidente dos EUA, George W. Bush, pediu que a Turquia não lance a ofensiva. "Queremos deixar claro à Turquia que, em nossa opinião, não é de seu interesse enviar militares para o Iraque."

O primeiro-ministro turco, Tayyip Erdogan, disse que prefere negociar uma solução pacífica para a questão da atuação de separatistas curdos na Turquia. Mas afirmou que nem os americanos nem os iraquianos tomaram medidas efetivas contra os rebeldes. Autoridades do Iraque e dos EUA prometeram enfrentar o problema com mais força, com o objetivo de evitar uma intervenção turca.

O vice-presidente do Iraque, Tareq al Hashemi, disse em Ancara, na Turquia, que atingiu seus objetivos em conversas com líderes turcos. Ele chegou à Turquia anteontem. "Acho que consegui o que queria. Agora há uma nova atmosfera, e podemos usá-la. O Iraque deve ter uma chance para combater as atividades terroristas entre fronteiras", disse Hashemi.

Os EUA, que têm a Turquia como um aliado na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), temem que uma incursão na região desestabilize uma das áreas mais seguras no Iraque. Temem ainda que incentive outros países a intervir na região.

"Demos alguns passos, mas foram inadequados e estamos tentando melhorar nossa cooperação com Iraque e Turquia", disse Brent Scowcroft, um ex-conselheiro do Conselho Nacional de Segurança dos EUA. A forças americanas estão concentradas no centro e no sul do Iraque, áreas mais instáveis.

Analistas acreditam que a Turquia deve evitar uma invasão, por enquanto, limitando-se no máximo a ataques aéreos e ações contra forças curdas na fronteira.