Título: Fim do ano chega mais cedo para companhias na fila da Bovespa
Autor: Valenti , Graziella
Fonte: Valor Econômico, 26/11/2007, Empresas, p. B3

O recorde de aberturas de capital em 2007 já está garantido, mas o número de operações não deve ter nenhum novo salto. O ano já está sendo dado como encerrado para estréias na Bovespa, caso persistam as preocupações com o cenário externo. A seletividade esperada para o segundo semestre aumentou ainda mais em novembro e praticamente fechou as portas às novatas de mercado. Só há alguma disposição para grandes operações, boas histórias e, de preferência, descontos elevados.

Apesar do aperto na liquidez internacional, não há do que reclamar. Até agora, 2007 acumula 71 ofertas de ações, sendo 62 de novas empresas, que movimentaram R$ 57,1 bilhões, entre emissões primárias e a colocações secundárias. Desse total, 14 operações ocorreram em outubro, girando R$ 15,4 bilhões - talvez o último mês de agito para novatas. A correria para aproveitar o que restou da disposição do investidor fez do mês passado o segundo maior em captações com ações, perdendo apenas para julho, quando ocorreram 19 ofertas. Em novembro, só o Banco Panamericano veio ao mercado, colando R$ 680 milhões.

O Brasil não tem qualquer relação com o problema dos títulos americanos de crédito imobiliário de baixa qualidade ("subprime"), porém, não houve como evitar os impactos dada a elevada participação do capital externo nas emissões locais. O dinheiro de estrangeiros respondeu por 76% das ofertas do ano - nada menos do que R$ 43,5 bilhões.

Com os sustos causados pelo problema internacional nas bolsas, o estrangeiro sentiu na pele a dificuldade nos investimentos que vinha fazendo nas novatas brasileiras: liquidez reduzida. Ao sair rapidamente das apostas que fez, contribuiu para derrubar ainda mais o preço da ação, ampliando seu prejuízo. O ímpeto do estrangeiro piorou o cenário já negativo do desempenho das ações das novatas. Além de decepções, a pressa dos fundos internacionais em reduzir suas posições no país pesou sobre as cotações.

Dentre as novas ações listadas na bolsa brasileira, 68% tiveram desempenho inferior ao do Índice Bovespa. São 63 novos papéis e apenas 20 com desempenho melhor que o principal indicador do mercado. Esse retrato preocupa também pelas críticas quanto à qualidade dos ativos. Liquidez é primordial, mas não basta. É preciso fundamentos e perspectivas interessantes.

Com o novo cenário, os fundos internacionais passaram a exigir operações de grande porte para participar. Não há como falar em colocações inferiores a de US$ 200 milhões ou US$ 250 milhões.

Ainda há quem esteja tentando colocar seus papéis, mas nos bastidores só se fala em certeza para a listagem da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) e para a distribuição secundária do Banco do Brasil. A decisão da instituição de elevar a fatia da oferta destinada ao varejo de 20% para 80% foi encarada como um sintoma do quão fechado está o mercado nessas últimas semanas. Além dessas, talvez a Droga Raia consiga, mas com o preço ditado pelo investidor - e não pela empresa.

A BM&F, assim como foi com a Bovespa Holding, fugirá à regra do momento. Algumas corretoras já estariam até sem condições de atender às reservas para compra dos papéis, dada a forte demanda. Tanto a bolsa de mercadorias como a bolsa paulista chamaram atenção de pequenas e grandes investidores, nacionais e estrangeiros. Para os fundos internacionais, uma forma simples de apostar na economia e no mercado brasileiro, numa operação com liquidez garantida. Sozinha, a oferta da Bovespa somou R$ 6,6 bilhões. A BM&F não deve ficar por menos.

Embora a lista de pedidos de ofertas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ainda esteja longa, diversas companhias consideram adiar as colocações ou até mesmo desistir e só voltar a pensar nisso depois que o cenário clarear. Não é apenas para o investidor que está difícil tomar decisões. As companhias também estão temerosas, sem saber se aceitam o elevado desconto exigido pelo investidor ou se adiam os planos.

A PPE Fios Esmaltados, parte da antiga Pirelli Cabos, já anunciou sua desistência à CVM. A idéia é voltar em 2008. A companhia sofreu com a combinação de alta seletividade e exigência de liquidez. A oferta original seria de até R$ 400 milhões. Mas com o desconto que o mercado passou a querer atribuir as novatas, a operação mudaria significativamente de patamar - perdendo atratividade. A empresa foi adquirida pelos próprios administradores, junto com executivos do Banco Fator por R$ 95 milhões, há um ano.