Título: Parada técnica
Autor: Fariello, Danilo; Cotias, Adriana
Fonte: Valor Econômico, 19/10/2007, Eu& Investimento, p. D1

O dia seguinte à interrupção do ciclo de corte da taxa básica brasileira de juros, a Selic, não foi dos melhores. Embora esperada em alguma medida, os juros futuros subiram e levaram junto o retorno dos títulos públicos prefixados e indexados à inflação, o que faz antever algum efeito negativo nos preços dos papéis do Tesouro Direto e nas cotas dos fundos de renda fixa e multimercados. No caso dos fundos, as cotas são divulgadas com dois dias de atraso, portanto, ainda não é possível ver o tamanho do prejuízo. Trocar de aplicação por conta desses ajustes é, entretanto, precipitado, já que a pausa do Comitê de Política Monetária (Copom) pode significar um ganho melhor por um período mais prolongado, além de reabrir oportunidades de compra nos papéis mais longos.

Os agentes financeiros estavam divididos sobre qual seria a decisão do colegiado do Banco Central (BC) e havia bons argumentos tanto para a manutenção da taxa em 11,25% ao ano quanto para uma redução de 0,25 ponto percentual, diz o estrategista de Renda Fixa da Quest Investimentos, Humberto Vignatti - que pertencia ao clube dos otimistas. "O IPCA de setembro confirmou a desaceleração dos preços dos alimentos, mostrou que a alta em serviços, observada em agosto, foi pontual e esse dado, junto com outros números de inflação e a apreciação do câmbio, permitia uma queda adicional", diz. "Mas o BC optou pela decisão mais conservadora, em linha com o discurso da última ata do Copom e do relatório de inflação, que indicavam o aumento da demanda e a trajetória ascendente dos preços."

Embora em alta ontem, os juros futuros ainda indicam, pelo menos até janeiro de 2009, que o rumo da Selic é para baixo. Para Vignatti, tão logo os efeitos dos últimos cortes sejam sentidos na economia, haverá espaço para novas reduções ao longo de 2008. Com tal cenário, títulos pré longos ganham atratividade. No Tesouro Direto, a LTN com vencimento em 1º de outubro de 2009 garantia ontem retorno de 11,45% ao ano, ante 11,34% de uma semana atrás.

Joaquim Elói Cirne de Toledo, diretor de recursos de terceiros da Nossa Caixa diz que a empinada dos juros abateu boa parte do retorno excepcional que os títulos prefixados longos ofereciam aos fundos da casa no mês, que vinham apresentando rendimento muito acima do CDI. "Os fundos agora apresentarão alta volatilidade, mas os investidores devem agüentar firme, porque esse período vai passar."

Esse sobe-e-desce das cotas de renda fixa é uma realidade que passou a ser percebida em maio, quando começaram as turbulências no mercado americano em torno da crise das hipotecas. Segundo cálculos de Marcelo D'Agosto, da consultoria Fortuna, a perda máxima dos fundos de renda fixa em um mês - cálculo chamado de Value at Risk (VaR) - era de 0,24% no fim de 2006 e subiu gradualmente até os 0,87% atuais. "Isso significa que a volatilidade aumentou e, por conseqüência, o risco."

Alexandre Mathias, da Unibanco Asset Management (UAM), espera que a volatilidade caia a partir de agora. "Não haverá mais especulação no curto prazo sobre o rumo do juro, à medida que o BC tende a manter a taxa por, pelo menos, uns seis meses." Para ele, a parada do BC deve diminuir o apetite dos estrangeiros e dos fundos multimercados pelos papéis prefixados, o que tende a colaborar com uma menor oscilação das taxas. A manutenção da Selic também indica mais rigor do governo com o controle da inflação, o que pode garantir uma rentabilidade líquida melhor para quem investir na renda fixa. Os títulos prefixados longos ficaram mais apetitosos. "É uma boa opção para os mais arrojados, que não ligam tanto para a oscilação de curto prazo."

A economista-chefe da Bradesco Asset Management (BRAM), Ana Cristina da Costa, acrescenta que o mercado reagiu ontem não só à ação do BC, mas também à alta das vendas de varejo em agosto no Brasil e aos dados de seguro desemprego nos Estados Unidos. Ela conta que a instituição já trabalhava com a hipótese de manutenção da Selic e que, por isso, os fundos da casa vão passar sem arranhões.

A certeza dos especialistas é que este momento é mais uma prova de que a fase de bonança, com alta previsibilidade, passou. "Não há mais espaço para conseguir altos ganhos de capital na renda fixa", diz Mathias, acrescentando que, com gestão ativa, é possível obter lucros bons independentemente do rumo da Selic. Será preciso, porém, ter estômago para suportar os vaivéns no meio do caminho.