Título: Para EUA, Brasil age como um adolescente
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 06/12/2007, Brasil, p. A6

Os Estados Unidos e a União Européia entraram em novo choque com o Brasil, Argentina e outros emergentes com proposta para limitar a capacidade desses países protegerem setores industriais sensíveis, num acordo na Rodada Doha. Ao mesmo tempo, a negociadora-chefe dos EUA, Susan Schwab, jogou duro e chegou a comparar a postura do Brasil e da Índia na negociação a dois "adolescentes" com a primeira carteira de motorista, envenenando ainda mais o clima na negociação.

Segundo ela, os dois países lutaram para chegar à "mesa grande" das negociações de liberalização do comércio, mas estão tendo dificuldades para lidar com as obrigações decorrentes desse fato. "Eles estão descobrindo que isso resulta em responsabilidades e, com isso, advêm obrigações. E às vezes é difícil estar na mesa grande da sala pequena onde se espera que você contribua e não só questione."

Para Schwab, os dois países, que lideram o G-20 (grupo que reúne países em desenvolvimento), estão na linha de frente nos pedidos para que os EUA e a União Européia reduzam seus subsídios agrícolas, mas resistem a abrir seus mercados para os bens industriais dos países ricos. Ela afirmou que Brasil e Índia não estão errados em tentar aumentar os seus ganhos nas negociações, mas que não haverá um acordo mundial de comércio caso eles não abram seus mercados.

Enquanto o Mercosul pede flexibilidade adicional para proteger mais setores industriais sensíveis, os EUA e a UE apareceram ontem com oferta freando a proteção já proposta pelo atual do mediador da negociação. Pela fórmula apresentada, o Brasil, por exemplo, não pode designar todo um setor para ser protegido. Pode no máximo proteger 50% das linhas tarifárias de um setor como o automotivo, que teria corte menor do que o determinado pela fórmula a ser acertada pelos países.

A China chegou a qualificar a proposta de "detestável" e "repugnante". Desta vez, até os países emergentes mais favoráveis à liberalização, como México e Tailândia, rejeitaram apoio aos americanos e europeus. O Brasil, África do Sul, Índia e outros países consideraram a sugestão "inaceitável".

A África do Sul, em nome do Nama-11, espécie de G-20 na área industrial, com participação do Brasil, Índia e Argentina, voltou a defender flexibilidade adicional para uniões aduaneiras. E quer que a flexibilidade dada na área agrícola para acomodar os interesses de países ricos seja levada em conta para as nações em desenvolvimento na área industrial. (AM, com agências noticiosas)