Título: Leite brasileiro alivia escassez na Venezuela
Autor: Rocha, Alda do Amaral
Fonte: Valor Econômico, 06/12/2007, Brasil, p. A7

A escassez de alimentos, que já se reflete nos índices de inflação na Venezuela, leva o país governado pelo presidente Hugo Chávez a medidas drásticas. Em novembro, o governo venezuelano comprou 4 mil toneladas de leite em pó do Brasil e, como necessitava com urgência do alimento, pagou para que o produto fosse transportado de avião.

Segundo Jacques Gontijo, vice-presidente da cooperativa mineira Itambé, que forneceu o leite para o governo venezuelano, quase 60 aviões de transportadores privados brasileiros ou estrangeiros levaram, na semana passada, o produto avaliado em US$ 20 milhões para a Venezuela. Os aviões tinham capacidade entre 60 e 100 toneladas cada um, e o governo venezuelano pagou US$ 3.000 por tonelada de produto transportado.

Entre janeiro e outubro deste ano, a Venezuela comprou 7,5 mil toneladas de leite em pó do Brasil, um montante de US$ 30 milhões, segundo Alfredo de Goye, presidente da trading Serlac, responsável pela exportação do produto. Em apenas um mês, porém, a Venezuela comprou a metade disso diante do desabastecimento no mercado, que contribuiu para a alta de 4,4% na inflação no país só em novembro. No ano, a inflação acumulada na Venezuela é de 18,6%.

As compras governamentais da Venezuela são destinadas a atender à rede de supermercados populares Mercal, que é estatal e vende produtos com preços subsidiados. E nela que a população mais pobre do país tem enfrentado grandes filas para comprar alimentos.

De acordo com especialistas do setor, a Venezuela produz um volume pequeno de leite e é historicamente uma importadora do alimento. E apesar dos esforços que o governo venezuelano afirma fazer para estimular a produção, não tem obtido sucesso e não consegue atender à crescente demanda.

Além da pequena produção local, a menor oferta de leite no mercado mundial por conta de problemas climáticos em importantes fornecedores e o aumento da demanda em várias regiões também agravaram a situação do abastecimento de leite na Venezuela, explica Goye, da Serlac. Essa conjuntura fez os preços dos lácteos no mercado internacional mais do que dobrarem no período de um ano.

Pelo leite em pó brasileiro comprado emergencialmente, a Venezuela pagou US$ 5.000 a tonelada, um valor em linha com o mercado hoje, segundo Jacques Gontijo.

A Venezuela importa a cada ano cerca de 100 mil toneladas de leite em pó. Além do Brasil, compra o produto da Nova Zelândia, Europa, Argentina e Uruguai. Este ano, porém, a produção recuou na Nova Zelândia e Uruguai, a Europa está exportando menos e a Argentina impôs tarifas de exportação sobre produtos agrícolas para segurar a inflação no país.

Nesse cenário, o Brasil foi o único fornecedor que tinha leite em pó disponível para fornecer prontamente à Venezuela, diz Gontijo, da Itambé.

Para Alfredo de Goye, há potencial para que a Venezuela amplie os volumes de leite em pó comprados do Brasil. Mas as quantidades devem ser menores do que a adquirida na compra emergencial feita em novembro.