Título: Máfia siciliana parece um negócio em declínio
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Fonte: Valor Econômico, 12/12/2007, Internacional, p. A11

Antes de se jogar através de uma janela, depois de cercado pela polícia, Daniele Emmanuello - chefão da máfia em Gela, cidade portuária siciliana -, teve tempo apenas de vestir algumas roupas sobre seu pijama. Ou assim pareceu. Ele foi morto com um tiro enquanto fugia, em 3 de dezembro. Durante a autópsia, os patologistas descobriram que que Emmanuello tinha feito algo mais em seus derradeiros momentos: ele havia engolido um pequeno saquinho de plástico contendo minúsculas anotações em código.

Registros semelhantes foram encontradas no ano passado no esconderijo de Bernardo Provenzano, o "capo di tutti i capi" (chefe de todos os chefes) da Cosa Nostra, a máfia siciliana, e com Salvatore Lo Piccolo, seu sucessor em potencial, que também foi preso, no mês passado. Essa riqueza de evidências é perigosa para a máfia. Quando decifrada, levará os investigadores não apenas a asseclas, mas também a empresários que dão dinheiro em troca de proteção.

O empresariado siciliano paga à Cosa Nostra um montante estimado em 8 bilhões de euros (cerca de US$ 12 bilhões) por ano. Agora que a máfia está menos envolvida em contrabando internacional de drogas, extorsões tornaram-se a sua principal fonte de receitas. Por isso, a máfia parece mais vulnerável à pressão combinada do governo e dos empresários que se recusam a pagar.

No dia seguinte à morte de Emmanuello, a polícia italiana prendeu dezenas de suspeitos de pertencer à máfia e apreendeu o "libro mastro", o cadastro central ou livro-caixa, de todas as empresas que pagam dinheiro a um clã em ascensão em Catania, cidade no leste da Sicília.

No mês passado, um documento similar foi apreendido com Lo Piccolo, o que levou a polícia a interrogar, entre outros, o presidente da associação dos médicos de Palermo (a capital da Sicília). Ele nega que tenha pago contribuições à máfia.

Ao mesmo tempo, um pequeno, mas crescente, grupo de empresários, em sua maioria jovens, está desafiando os mafiosos.

O improvável centro da revolta é Caltanissetta, cidade localizada no tradicionalmente atrasado centro da Sicília. No mês passado, os mafiosos mostraram que encaram seriamente a rebelião ao incendiar a sede local da Confindustria, a principal organização empresarial da Itália, que apoiou entusiasticamente a revolta de seus associados.

Ameaçadoramente, eles também roubaram discos de computador que listam os nomes dos empresários envolvidos.

A revolta contra o "pizzo" - o termo que designa pagamentos à máfia em troca de proteção - alastrou-se para a cidade meridional de Agrigento e, após a morte de Emmanuello, poderá estender-se a Gela.

O mais importante são os primeiros sinais de contestação em Palermo, cidade natal da Cosa Nostra. Em 16 de novembro, três homens, entre eles o filho do notório chefão de um clã, foram condenados a cumprir sentenças entre 10 e 16 anos de prisão por extorsão. Eles tinham sido denunciados por um conhecido dono de restaurantes. Menos de uma semana antes, a cidade constituiu sua primeira associação antichantagem.

Há pelo menos dois fatores por trás dessas mudanças. Um deles é o vácuo de poder na Cosa Nostra, resultante da prisão de Lo Piccolo. Outro, mais surpreendente, é a disseminação da defesa do liberalismo econômico numa sociedade até então acostumada a fazer negócios por meio de cartéis e de apadrinhamento político.

Ao dar suas razões para enfrentar a máfia, Enrico Colaianni, que comanda o novo movimento empresarial de resistência em Palermo, declarou no mês passado ao "Corriere della Sera", um grande jornal de Milão: "O esquema chantagista manipula o mercado, e, se pagamos, concordamos em fazer parte de um sistema que rejeita... a livre concorrência".

Giuseppe Pace, presidente das câmaras de comércio da Sicília, com razão declarou tratar-se de um "momento extraordinário".

Mas ele e outros empreendedores não podem derrotar a Cosa Nostra sozinhos. Necessitam de apoio político. No mês passado, o Parlamento italiano inseriu uma cláusula no orçamento de 2008 que proporciona isenções tributárias a empresários que não cedam a exigências de pagar em troca de proteção.

Mas é preciso fazer mais. Uma amplamente divulgada, mas ainda não realizada, visita do primeiro-ministro italiano, Romano Prodi (que lidera uma coalizão de centro-esquerda), aos empresários rebeldes ajudaria a persuadir os titubeantes de que contrapor-se à máfia é mais do que apenas corajosa excentricidade.