Título: Vinho transgênico para europeu ver?
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 21/12/2007, Agronegócios, p. B13
A batalha entre os que vêem a personalidade como resultado da natureza e os que apontam a criação como influência-chave não se confina aos estudantes da humanidade. Também chega ao âmago da produção de vinho. Para os produtores europeus, a variedade de uva é importante, é claro. Ninguém confundiria um Cabernet Sauvignon com um Sangiovese ou um Riesling com um Chardonnay.
As variedades de uva normalmente propagam-se por meio de cortes de mudas. Em outras palavras, clones. Então, o que cria a personalidade de um vinho, argumentam, é o "terroir", palavra francesa para a combinação de solo e microclima que confere aos controles de denominação de origem seu prestígio. Ou seja, a essência do vinho está em sua criação.
Vinicultores do Novo Mundo discordariam disso. Onde se planta é importante, mas não mais do que para qualquer outra cultura agrícola. O verdadeiro sabor está codificado nos genes e a consistência de uma colheita clonada é um trunfo. A diversidade ambiental deve ser combatida, pois mascara a personalidade da uva e dificulta a produção do produto consistente.
Como no debate sobre a personalidade humana, ambos os lados têm fortes argumentos E é o lado naturista o que mais ganha força nos vinhos, graças ao volume de dados sobre o papel dos genes.
Na semana passada, a vertente ganhou mais energia, após o primeiro seqüenciamento genético completo de uma variedade de uva Pinot Noir ter sido divulgado na Public Library of Science. Ao desvelar os genes da uva, Riccardo Velasco, do Instituto Agrícola de San Michele all´Adige da Itália, não só expôs muitos segredos genéticos dos sabores desta uva, mas abriu caminho para o vinho transgênico.
Uma descoberta surpreendente é o grau de diferença, de 11,2%, entre os dois conjuntos de cromossomos da Pinot. Eles vieram de variedades originalmente cruzadas para criar o clone. Essas variedades parentais, portanto, provavelmente foram muito diferentes entre si, já que 11,2% é uma variação genética bem maior da que existe entre o chimpanzé e o homem.
Os esforços de Velasco trouxeram um tesouro de informações para produtores que dão ênfase à tecnologia. Sua equipe encontrou centenas de genes que codificam enzimas responsáveis por produzir sabores e compostos aromáticos. Os dados ajudarão os que buscam produzir sabores mais consistentes e os que almejam inovar.
Conhecer o genoma do Pinot Noir deverá ajudar as pessoas que gostariam de cultivar uvas em regiões fora de cogitação, seja por motivos climáticos ou porque doenças locais dizimariam as plantas. A Flórida é um exemplo. Produz poucas uvas Muscat, variedade pouco usada para fazer vinho. Sua produção de vinho é de apenas 0,10% do total dos EUA. O motivo é que o Estado é assolado por doenças que fustigam as uvas para vinho. Entre elas há a infecção por uma bactéria chamada doença de Pierce, infecções por fungos e doenças virais, como o da folha em leque e o fendilhamento cortical.
Se Dennis Gray, biólogo da Univesidade da Flórida, prosseguir em sua trilha, isso mudará. Gray trabalha há anos para produzir vinhas resistentes a essas doenças com a transgenia. Neste ano, ele começou testes de campo com uvas modificadas para resistir à doença de Pierce e à infecção por fungos.
Muitas pessoas, porém, esperam que os problemas das doenças nas videiras possam ser resolvidos sem a necessidade de modificações genéticas, que trazem o risco de boicotes de consumidores.
A genética também pode ajudar nisto. Uma alternativa a deslocar genes é criar novas variedades da forma tradicional, por meio da polinização cruzada e, então, empregar técnicas de seqüenciamento para descobrir qual a progenitura desses cruzamentos possui as combinações desejáveis de genes.
Gray é cético com a abordagem. Quando espécies selvagens de uvas com boa resistência a doenças são combinadas com variedades cultivadas que tenham ótimas qualidades de sabor, o resultado é um vinho de menor qualidade, com só parte da resistência desejada, diz.
O melhor, sustenta Gray, é escolher os genes e deliberadamente modificá-los até chegar a sua meta. Além disso, como esses produtos genéticos raramente são detectados na polpa (surgem nos galhos, raízes, folhas e sementes), o vinho de uma vinha transgênica não contém esses produtos genéticos.
Ainda não se sabe se isso será suficiente para convencer os europeus, sobretudo porque os benefícios da resistência a pragas são sentidos só pelos produtores. Mas, um Pinot Noir californiano com sabores aperfeiçoados geneticamente seria atraente para paladares saturados. Assim, a pesquisa sobre vinhos transgênicos chegaria ao Velho Mundo - até em regiões antiquadas na França e Itália. Como lembra o filme "O Leopardo", de Giuseppe di Lampedusa, se quisermos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude.