Título: Pedidos à indústria indicam produção em alta em janeiro
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Fonte: Valor Econômico, 18/12/2007, Brasil, p. A6

Para Vicente Donini, da Marisol, melhor distribuição de renda e crédito explicam o bom momento de vendas A indústria que produz bens de consumo já se prepara para um janeiro aquecido pela forte reposição de estoques. Os pedidos do varejo já chegaram a muitos fabricantes de vestuário, calçados, eletroeletrônicos e materiais de construção e indicam perspectivas de negócios muito superiores às de 2007 para o primeiro bimestre do próximo ano.

Na área de eletroeletrônicos, as indústrias iniciarão 2008 em ritmo acelerado, pressionadas pela necessidade de recompor estoques e atender aos pedidos em carteira que, além de mais numerosos, terão seus prazos de entrega antecipados em função do Carnaval. "O ritmo da atividade industrial está bem acelerado e não há previsão de férias, ou paralisações no início do ano. A tendência é de que a produção mantenha o ritmo dos últimos meses", diz Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).

A americana Whirlpool, dona das marcas Brastemp e Consul, aumentou o número de funcionários em 5% neste ano e mantém o mesmo ritmo de produção desde maio. A meta, afirma Sérgio Leme, diretor comercial, é garantir o mesmo patamar no primeiro semestre para garantir a entrega dos pedidos em carteira para o próximo ano, que já estão entre 10% e 15% maiores que em 2007.

Paulo Miri, gerente-geral de logística e planejamento da Whirlpool, observa que, normalmente, a produção desacelera-se no quarto trimestre. "A empresa anteviu que o fim de ano seria forte em vendas e começou a criar um estoque de antecipação desde maio. Com isso, manteve o mesmo ritmo de produção todo o ano", observa Miri.

O gerente-comercial da Brandili, Germano Costa, está surpreso com a forte demanda de última hora pela coleção de verão da empresa. A indústria de roupa infantil, com sede em Apiúna (SC), tem pedidos de cerca de 150 mil peças para entregar em janeiro, volume dez vezes maior do que os pedidos que existiam em janeiro de 2007. "Tradicionalmente, nesta época recebíamos pedidos para a coleção de verão apenas do Nordeste. O varejo do Sul nesta época já começava a se preocupar com a próxima coleção, voltada para outono e inverno. Mas dessa vez é o pessoal do Sul que veio atrás de mais peças da coleção de verão", diz Costa.

A diferença entre o atual momento e 2004 é que naquele ano as vendas dependiam em parte do mercado externo, e neste ano estão vinculadas ao consumo interno. "Temos pelo menos 15 redes de varejo que são nossos clientes que já estão sem estoque", destaca Costa.

O presidente da também catarinense Marisol, Vicente Donini, diz que nos últimos 90 dias há uma "sinalização muito positiva do varejo". Os clientes estão comprando volumes representativos e a empresa já tem encomendas firmes para janeiro, um movimento antecipado na comparação com janeiro de 2007. "Essas compras geralmente só existiam a partir da segunda quinzena do mês."

Donini diz que as compras não são de reposição da coleção verão, mas sim de uma coleção intermediária que a empresa desenvolve há algum tempo para suprir o mês de janeiro e fevereiro, enquanto não produz a coleção outono/inverno. Para o empresário, isso reflete uma situação mais positiva na economia do país, como melhor distribuição de renda e aumento do crédito para o consumo.

As indústrias calçadistas já esperam iniciar 2008 com o melhor primeiro bimestre em três anos por conta da reposição e renovação de estoques no varejo. A avaliação é do diretor executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Heitor Klein. Em algumas empresas, como a A. Grings, de Igrejinha (RS), dona da marca Piccadilly, as encomendas já recebidas para janeiro superam em 20% o volume registrado em igual período de 2006.

Segundo o presidente da A.Grings, Paulo Grings, a fabricante pode chegar à Couromoda, em janeiro, apenas com alguns produtos para pronta entrega e em condições de aceitar pedidos somente para fevereiro em diante. Ele acredita que o início de 2008 sinaliza um ano melhor do que 2007, quando a produção vai bater nos 8 milhões de pares de calçados femininos, sendo 72% destinados ao mercado interno.

O desempenho deste ano, conforme o empresário, será 15% superior ao de 2006 e já levou a empresa a contratar 400 novos empregados no período, ampliando o quadro para 3,1 mil pessoas. A A.Grings antecipou em cerca de 45 dias os lançamentos que faria apenas na Couromoda e desde o início deste mês está produzindo para atender encomendas para janeiro.

A West Coast, de Ivoti (RS), fechou no início de novembro as encomendas para o Natal com alta de 7,5% em comparação com igual período de 2007, explica o gerente de marketing Sérgio Baccaro Júnior. Ontem, a empresa começou a produzir para atender aos pedidos para o mês que vem, que continuarão sendo recebidos durante as férias coletivas de 24 de dezembro a 13 de janeiro.

Conforme Baccaro Júnior, a fabricante de calçados aposta numa alta das vendas para janeiro em comparação com o mesmo mês de 2007, mas não arrisca índices. Ele acredita que muitos lojistas deixarão para fazer as encomendas para janeiro depois de avaliar o desempenho do Natal.

A indústria de tintas em Pernambuco começará 2008 com um ritmo mais intenso de atividade. Segundo estimativas do Siquimpe, sindicato que representa o segmento no Estado, o setor deverá produzir de 15% a 20% em janeiro deste ano para repor seus estoques, na comparação com 2007.

"Foi um ano muito bom para a construção civil. Mas, agora, no fim de ano, quando todo mundo quer virar o ano com a casa limpa, tem se mostrado ainda melhor", afirma Carlos Abdenor Neiva Nunes, presidente do Siquimpe. Por causa disso, a entidade prevê que haverá aumento de 5% no número de trabalhadores do segmento.

A unidade da Tintas Coral no Recife já elevou desde novembro a fabricação de tintas em 15% ante igual período do ano passado. Esse incremento, explica o gerente de operação Frederico Gonçalves, deverá ser mantido em janeiro para repor estoques. "Estamos quase no fim do ano e o varejo continua fazendo pedidos. É um sinal de que o balcão está rodando bem", afirma Gonçalves.

Para acompanhar a velocidade de produção, o quadro de funcionários da área industrial será aumentado em 5%. Nas empresas de menor porte, os reflexos das vendas maiores também estão aparecendo. A pernambucana Solv-Química está aumentando o número de funcionários em 10%, mesmo percentual de crescimento da comercialização de tintas neste ano. "Janeiro deve repetir o mesmo desempenho, porque o ritmo acelerado de compras dos lojistas permanece", diz Sérgio Queiroz, diretor comercial da Solv-Química.

Na área de eletrodomésticos, o setor de linha branca cresce acima do previsto pelas indústrias, resultado impulsionado por fatores como a expansão do setor imobiliário, aumento do crédito disponível, o fim da vida útil dos refrigerados adquiridos no auge do Plano Real, em 1994, e a entressafra da venda de televisores, que atingiram o auge de vendas o ano passado em função da Copa do Mundo de futebol.

Maurício Loureiro, presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), confirma que o quadro é semelhante no pólo industrial de Manaus. "As indústrias que já operam devem iniciar o ano com produção em ritmo mais acelerado que em anos anteriores", afirma. E acrescenta que na região há projetos de investimentos em novas fábricas para produção de "set top box" (conversor para os televisores analógicos) e de motos, o que também ajudará a elevar o nível de atividade industrial da região. "Diferentemente de 2006, os estoques nesse fim de ano ficarão abaixo do nível ideal. O planejamento deste ano foi mais bem elaborado, não houve grandes surpresas", afirma Loureiro.