Título: Comércio puxa alta no consumo de energia
Autor: Rittner , Daniel
Fonte: Valor Econômico, 28/12/2007, Brasil, p. A3

O consumo de energia elétrica deve terminar o ano com expansão de 5,2% a 5,4%. Em termos absolutos, esse crescimento sobre 2006 equivale ao funcionamento de uma usina hidrelétrica de 3,8 mil megawatts (MW) de potência instalada ou a quatro vezes o consumo anual de Brasília. A expansão registrada em 2007 - de 5,3% nos 12 meses encerrados em novembro, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), estatal vinculada ao Ministério de Minas e Energia - foi puxada pelas atividades do setor comercial.

O aquecimento da economia explica a alta de 6,7% do consumo de energia pelo comércio. A EPE atribuiu esse indicador ao número recorde de passageiros nos aeroportos, aos bons índices de ocupação do setor hoteleiro e à grande movimentação nos portos, como resultado do aumento do comércio exterior. O consumo de energia pela indústria subiu 4,8% nos últimos 12 meses até novembro.

Para Amílcar Gonçalves Guerreiro, diretor de estudos econômicos e energéticos da EPE, existem indícios de uma mudança estrutural no consumo de eletricidade no Brasil. Historicamente, para cada ponto de crescimento do PIB, a demanda por energia aumentava de 1,2 a 1,3 ponto percentual. Não apenas a expansão da economia como um todo e do consumo de energia apresentam números bastante parecidos neste ano, como a revisão do PIB pelo IBGE demonstrou que a produtividade alcançada nos últimos anos foi maior do que se acreditava.

Guerreiro lembra que, enquanto o crescimento econômico dos anos 70 estava calcado em indústrias eletrointensivas, a expansão recente reforça a participação do setor de serviços, cujo consumo de energia é menor. Na prática, a relação entre alta do PIB e da demanda por eletricidade parece rumar para algo mais perto de 1 por 1.

Além das mudanças de hábitos, principalmente nas classes de renda mais elevada, Guerreiro destaca a maior eficiência dos eletrodomésticos fabricados atualmente. Isso explica a aparente contradição entre aumento no consumo de bens duráveis e relativa estabilidade da demanda por energia. Geladeiras compradas em meados dos anos 90, por exemplo, durante o "boom" do Plano Real, estão sendo trocados por aparelhos mais eficientes. Outro ponto interessante: a região com maior crescimento do consumo residencial foi o Nordeste (7,5% até novembro), o que a EPE relaciona diretamente com a distribuição de renda e o aumento do poder aquisitivo.