Título: Renda alta terá ganho real maior em 2008
Autor: Bouças, Cibelle
Fonte: Valor Econômico, 04/01/2008, Brasil, p. A3

A pirâmide de distribuição de renda no país deverá sofrer uma inversão de tendência neste ano. Diferentemente do que ocorreu desde 2000, as classes de renda mais alta deverão registrar ganhos reais na massa salarial superiores aos registrados pelas classes mais baixas. A mudança é fruto de dois movimentos simultâneos no mercado de trabalho.

De um lado, a expansão econômica e a procura mais intensiva por mão-de-obra altamente qualificada força empresas a oferecerem ganhos reais mais significativos aos profissionais de maiores salários para evitar a rotatividade desse grupo. De outro, o reajuste do salário mínimo será menor em relação aos anos anteriores, o que se deve à metodologia de cálculo.

O mínimo será corrigido com base na inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) em 2007 - acumulada em 4,15% até novembro - , mais a taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2006 (de 3,8%). O novo mínimo, que começa a vigorar em abril, ainda será sancionado e a proposta do governo prevê um reajuste de 7,6%, passando de R$ 380 para R$ 408,90. O ganho será inferior ao de 2007, de 5,3%, e 5,7%, apurado em 2006.

Descontada a inflação de 2007, o ganho real dos trabalhadores que recebem salário mínimo deverá ficar em torno de 3,7%, de acordo com cálculo da LCA Consultores. "O preço dos alimentos também tem um efeito sobre o gasto das famílias de baixa renda maior que nos anos anteriores. Será um ano difícil em termos de ganhos reais para as classes de renda mais baixas", afirma Fábio Romão, economista da LCA.

"O crescimento da renda será mais simétrico, com ganhos mais significativos para a classe média, o que será favorável para o aumento do consumo, sobretudo de produtos de maior valor agregado", concorda Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados. De acordo com levantamento feito pela consultoria, entre 2002 e 2006 o aumento da renda nos domicílios mais ricos (o equivalente a 10% da população do país) foi de 1,3%. Já nos domicílios mais pobres (30% a 40% do total) o ganho real acumulado foi de 18,9%.

Para 2008, a MB projeta um crescimento da massa salarial total do país em torno de 4,4%, ante 5,6% estimados para o ano passado. Vale também prevê aumento do número de postos de trabalho entre 4,4% e 4,6% neste ano. "Provavelmente 2008 será um ano de transição entre um 2007 muito positivo e um 2009 pior", afirma Vale.

A RC Consultores projeta para este ano um incremento de 5% na massa real de rendimentos, ante expansão de 6% no ano passado. A consultoria projeta aumento de 2% no rendimento real e de 3% no pessoal ocupado, resultado ainda estimulado pela expansão da atividade industrial e pela recuperação do setor agroindustrial neste ano.

A LCA Consultores também projeta um incremento menor da massa salarial total neste ano, em comparação com 2007, com ganhos mais significativos para as classes média e alta. A consultoria prevê para este ano crescimento da massa real de salários de 5,36%, após uma expansão de 6% no ano passado. "Esse crescimento menor também é resultado da formalização de empregos de faixa salarial mais baixa", observa Fábio Romão.

O economista lembra que a base de cálculo da massa - que leva em consideração o número de empregados e os salários recebidos - se ampliou em 2007, sobretudo com a formalização de postos de trabalho em áreas cuja faixa salarial é menor, como na área de construção civil, por exemplo. "O crescimento em valor financeiro tende a ser menor", diz Romão. A consultoria projeta para este ano um incremento nominal de 8,5% na massa real de renda, ante um crescimento aproximado de 10% em 2007 - conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), até novembro o aumento acumulado era de 7,11%.

De acordo com a LCA, o número de novos postos de trabalho com carteira assinada no país em 2008 deve crescer em 1,567 milhão. Em 2007, o saldo foi maior, de 1,689 milhão. Novamente, o setor de serviços deve ser o maior gerador de novos postos de trabalho, com um saldo de 585,7 mil novas vagas, seguido pela indústria (448,1 mil), comércio (287,8 mil) e construção civil (204,1 mil).