Título: Fruticultura cresce no RN com projetos de irrigação
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 30/01/2008, Especial, p. A12

"Só não exporto mais porque falta fruta", afirma Carlo Porro, sócio da Agrícola Famosa, de Mossoró, que eleva a produção para ter navio de uso exclusivo Reza a crença popular que a água de Mossoró sai da torneira a 50º C e no asfalto é possível fritar um ovo. Na passagem pela região é possível perceber efeitos do clima. Os dias são quentes, com temperatura sempre acima dos 30º C. Pela estrada, onde não há irrigação, o que se vê é a caatinga, com as juremas - vegetação típica da região - ressecadas pelo sol forte, mas que ganham verde intenso da noite para o dia, quando chove.

Para alcançar a área rural foi preciso sair dos limites da BR-304 e da RN-010, asfaltadas, e tomar estradas de terra, pouco favoráveis ao transporte de frutas, segunda maior fonte de renda para o Rio Grande do Norte, perdendo apenas para o petróleo. O Estado é o maior exportador de frutas do país e o principal pólo de produção de melões e castanhas. Levantamento do Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf) revela que, de 204,5 mil toneladas de melão exportadas pelo país no ano passado, 138,3 mil foram produzidas em território potiguar (67,6% do total). O Estado também tem participação significativa nas vendas externas de banana (41%), mamão (24%), melancia (50,6%) e manga (6,15%).

Em 2007, de acordo com dados da Secex, os embarques de melões do Estado tiveram incremento de 19,46% em volume, para 138,39 mil toneladas, e de 46,6% em receita, para US$ 85,196 milhões. Os embarques de melancias, também já tradicionais, cresceram 9,7% em volume e 26,1% em receita (ver gráfico). Outras frutas, que até 2005 não eram citadas nos levantamentos oficiais em função dos volumes inexpressivos, começam a ganhar peso na balança comercial, como manga, mamão e banana. "Excluindo o petróleo, 72% das exportações são de produtos agrícolas, principalmente frutas", afirma Larissa Rosado, secretária da Agricultura, da Pecuária e da Pesca.

O Estado já era favorecido em âmbito internacional por possuir as certificações de área livre da mosca-das-frutas (que afeta a produção de mamão, melão e melancia) e área livre da Sigatoka Negra (fungo que traz prejuízos à bananicultura), essenciais para alcançar mercados como Estados Unidos, Japão e União Européia. "O avanço do programa de irrigação permitiu ampliar a produção de frutas em uma área que já era considerada livre das doenças e que antes estava praticamente abandonada", afirma Larissa.

O projeto de irrigação do Baixo-Açu, no oeste do Estado, foi constituído em 1994 pelo governo estadual e passou anos abandonada, voltando a receber aportes em 2001. Dos 6 mil hectares que a região ocupa, 952 hectares são áreas de assentamento, em parte ocupadas por agricultores familiares.

Nos últimos seis anos, o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas do Rio Grande do Norte (Dnocs-RN) e a Secretaria de Agricultura do Estado investiram R$ 6 milhões na recuperação da infra-estrutura de irrigação, que vai beneficiar a microrregião do Vale do Açu e a contígua Mossoró. A água é captada do rio Açu, perenizado em um trecho pela Barragem Armando Ribeiro Gonçalves, que tem capacidade de acumulação de 2,4 bilhões de metros cúbicos.

As duas microrregiões também serão beneficiadas com as obras de transposição do São Francisco. Quando realizado, o projeto vai perenizar o rio Apodi e o restante do Açu (também conhecido como Piranhas), com a construção de dois canais, sendo que o norte, de 402 km, captará 42,4 m3 por segundo para as bacias dos rios Jaguaribe (CE), Apodi (RN), Piranhas-Açu (PB e RN) e Paraíba (PB). Do volume total, 70% serão destinados à irrigação, 26% ao uso industrial e 4% à população local.

Hoje, 2,77 mil hectares da região já foram ocupadas por agricultores familiares e o restante da área, hoje desapropriada pelo governo, será concedida a empresas privadas para a produção agrícola. O deslanchar do projeto permitiu o cultivo na região, em 2007, de banana (985 hectares), capim-tifon (160 ha) - usado como ração para gado - , cana-de-açúcar (100 ha), manga (70 ha), mamão (55 ha), coco (34 ha), goiaba (25 ha) e melancia (20 ha). No fim de 2007, a Petrobras fechou acordo com produtores locais para o plantio de 13 mil hectares de girassol e outros 13 mil de algodão, para atender às usinas de biodiesel em Guamaré.

Até 2006, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os 7.152 hectares agriculturáveis da região de Açu eram ocupados principalmente com feijão (2.810 hectares), algodão (940 ha), melancia (318 ha) e milho (2,6 mil ha). Mossoró, que possui 16,22 mil hectares voltados à agricultura, dedicava 6,5 mil hectares ao milho, 4,4 mil ao melão, 2,7 mil para feijão, 1,4 mil para sorgo e 1 mil para algodão.

Francisco de Paula Segundo, presidente do Comitê Executivo de Fitossanidade do Rio Grande do Norte (Coex, associação que reúne produtores de Mossoró), vê com otimismo a expansão da agricultura na região. "Foi um erro perceber, 20 anos depois, que não daria certo a monocultura do melão, que demanda muita mão-de-obra", afirma. Neste ano, os produtores de Mossoró - que também usufruem do plantio irrigado - irão cultivar 2 mil hectares de mamão, 800 hectares de banana, 600 hectares de abacaxi, 2 mil hectares de manga, além dos tradicionais 12 mil hectares de melão.

Essa diversidade só se vê dentro das fazendas, ainda parcialmente ocultadas pela vegetação local. Carlo Porro, sócio da Agrícola Famosa, usufrui da irrigação desde 1995 - obtida, no entanto, com recursos privados. A empresa é a maior exportadora e produtora nacional de melão, com plantio de 4 mil hectares envolvendo os municípios de Mossoró, Tibau (RN) e Icapuí (CE) e exportações equivalentes a US$ 50 milhões (a exportação do Estado foi de US$ 85 milhões no período). A empresa, que produz quase 100 mil toneladas de frutas por ano, exporta diretamente para redes de supermercado européias e americanas.

Para garantir a venda direta a redes de supermercado, a empresa mantém estrutura própria de classificação e embalagem das frutas, que demanda por ano investimento médio de R$ 6 milhões. A empresa também mantém a Top Plan, voltada à produção de mudas, que atende à empresa e a produtores locais. Porro conta que as exportações da Agrícola Famosa já ultrapassaram 4 mil contêineres. A meta agora do empresário é ousada: quer ter produção de frutas o ano inteiro para ter navio próprio.

Para isso, Porro manterá o plantio de 4 mil hectares de melão neste ano, mas vai diversificar as lavouras, para garantir a produção de outros itens na entressafra do melão. Em 2007, iniciou o plantio de abacaxi (10 ha) e banana (80 ha), áreas que serão expandidas em quatro anos para 800 e 3 mil hectares, respectivamente. A meta é chegar a 70 mil toneladas de abacaxi e 234 mil toneladas de bananas por ano. "O clima permite uma produção de alta qualidade. Só não exporto mais porque não tenho fruta disponível", diz. "Mas antes de 2010 consigo fretar o navio", prevê.