Título: Projeto de carro elétrico deverá promover Israel
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Fonte: Valor Econômico, 30/01/2008, Empresas, p. B9

À primeira vista, Israel não parece ser o mercado mais adequado para o lançamento de um automóvel elétrico. Até recentemente, a consciência ambiental era quase que inexistente. O aquecimento global não é uma das principais preocupações de muitos israelenses. E embora os níveis de poluição do ar nas grandes cidades israelenses sejam elevados, há pouca fiscalização das leis existentes sobre a emissão de poluentes.

Mas Shai Agassi acredita que nos próximos três anos conseguirá convencer os israelenses a abraçar a preocupação com o meio ambiente. O ambicioso objetivo desse ex-executivo da SAP é livrar o transporte público e privado do país de sua dependência do petróleo - que é importado.

Em 21 de janeiro, Carlos Ghosn, presidente da Renault-Nissan, anunciou em Jerusalém que sua companhia estava se juntando ao Projeto Um Lugar Melhor, de Agassi, no mercado israelense. Israel foi escolhido, segundo os dois, porque é um campo de testes ideal para o carro elétrico. Noventa e nove por cento dos proprietários de automóveis dirigem menos de 70 Km por dia, e as principais cidades do país estão a distâncias máximas de 150 quilômetros umas das outras.

A Renault pretende começar a produção em série dos carros elétricos em 2011. "Estamos falando em começar com 10 mil a 20 mil veículos por ano no mercado israelense para tornar esse empreendimento viável", prevê Ghosn. É uma meta ambiciosa para um país onde as vendas de automóveis novos são inferiores a 200 mil unidades por ano.

Os israelenses terão o primeiro vislumbre do carro elétrico até o fim do ano, quando dezenas deles deverão estar circulando a título de teste. Até que as vendas comerciais comecem, dentro de três anos, o Projeto Um Lugar Melhor pretende investir centenas de milhões de dólares na infra-estrutura necessária para dar suporte aos veículos, incluindo uma ampla rede de postos de recarga e centenas de outros onde os proprietários poderão substituir baterias. Mas igualmente importante é o fato de que a companhia de Palo Alto, na Califórnia, terá de investir na educação da população israelense, mostrando os benefícios de troca para uma nova tecnologia.

Agassi e seus investidores, liderados pelo conglomerado petroquímico local Israel Corp., acreditam que um carro elétrico será mais barato para operar do que um modelo movido a gasolina. "Para a maioria dos israelenses, o verdadeiro teste será o preço do carro e o custo operacional", diz Jacob Enoch, presidente da Associação dos Importadores de Veículos de Israel. Enoch observa que até agora, veículos como o Toyota Prius e o Honda Civic não se mostraram um grande sucesso porque a questão ambiental ainda não "pegou" no país. De fato, os híbridos responderem por menos de 1% dos 192 mil automóveis novos vendidos em Israel no ano passado, mesmo tendo isenções fiscais.

Ironicamente, o governo israelense, que não se preocupa muito com a proteção ambiental, se tornou o maior apoiador da nova empreitada. Em 13 de janeiro, uma proposta sem precedentes foi aprovada pelo governo para taxar os automóveis novos com base em seus níveis de emissão de poluentes. A maior isenção fiscal irá para por veículos com emissão zero, como os modelos do Projeto Um Lugar Melhor para o mercado israelense. Eles pagarão um imposto de 10%, comparado aos atuais 79% cobrados dos automóveis comuns, e 30% dos híbridos. A proposta recomenda que o imposto sobre os veículos de emissões zero seja estendido até 2014, chegando gradualmente aos 30% até 2019, ou sofra uma emenda se sua participação de mercado alcançar os 20%.

O primeiro ministro Ehud Olmert justificou as isenções fiscais generosas afirmando que os automóveis de emissão zero de poluentes vão mudar o estilo de vida do país, e ajudar Israel a acabar com sua dependência total da energia importada. O país importa 10 milhões de toneladas de petróleo e 12 milhões de toneladas de carvão mineral anualmente, a um custo de mais de US$ 6 bilhões.

É claro que os automóveis não produzirão gases que aumentam o efeito estufa, mas gerar a energia que produzirá a eletricidade que os moverá, fará isso. Praticamente toda a eletricidade consumida por Israel é gerada por usinas movidas a carvão mineral e gás natural, de modo que nos primeiros anos, o projeto do carro elétrico indiretamente vai produzir gases que contribuem para o efeito estufa. Agassi acredita que em algum momento conseguirá adquirir eletricidade de fontes de energia renováveis. Na verdade, Israel tem uma política para produzir 10% da eletricidade que consome a partir da energia solar e eólica, até 2020.

No começo deste mês, a prefeitura de Tel Aviv anunciou que estava se juntando ao projeto de Agassi. O vice-prefeito Pe'er Wisner disse que a cidade vai lançar um plano piloto de construção de postos de recarga para os automóveis elétricos no perímetro urbano de Tel Aviv. Inicialmente serão cinco postos, mas a cidade pretende construir uma rede de 150 pontos de recarga em estacionamentos municipais e nas ruas. Os postos de substituição de baterias serão estabelecidos nas entradas de Tel Aviv.

A indústria de alta tecnologia de Israel também espera participar ativamente do projeto. "Há muitos empresários querendo participar", diz Jack Levy, fundador e sócio-gerente do Israel Cleantech Ventures, um fundo de capital de risco de Tel Aviv que tem uma pequena participação no Projeto Um Lugar Melhor. Ele acredita que Israel - do mundo acadêmico aos militares - tem muito "know-how" para contribuir com as tecnologias de baterias e células de combustível. Embora a Renault/Nissan não tenha planos de fabricar automóveis em Israel, ela vai abrir um centro local de pesquisa e desenvolvimento que se concentrará em tecnologias para o automóvel elétrico.

Israel tem uma participação minúscula no mercado automobilístico mundial, mas o sonho de Agassi é transformar o país em um formador de opinião global. Mas antes disso ele terá muito trabalho - primeiro, para provar que a idéia do carro elétrico pode funcionar, e depois vender a idéia para os israelenses, que só agora começam a mostrar interesse pelas questões ambientais.