Título: Crédito acelerado já provoca apreensão
Autor: Travaglin , Fernando
Fonte: Valor Econômico, 10/01/2008, Finanças, p. C1
Com a expansão do crédito, é possível continuar bancarizando? A bancarização não coloca em perigo o crescimento com estabilidade?". Essas perguntas foram feitas pelo economista-chefe do Santander para as Américas, José Juan Ruiz, diretamente ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, em recente evento em São Paulo, promovido pelo Valor e pela FGV.
A resposta de Meirelles foi enfática. "Estamos monitorando isso com muita atenção. Os bancos centrais têm instrumentos suficientemente fortes para tomar medidas prudenciais. Mas não é o caso agora", disse. Ainda de acordo com Meirelles, o crescimento se deu em linhas como veículos, que tem garantia real e consignado, que tem um limitador natural, que é o porcentual de salário ou do benefício.
Duas ações do governo, no entanto, já apontam na direção de uma preocupação com a demanda de crédito, uma das responsáveis pelo aumento do consumo. A primeira foi a elevação da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Apesar de a medida apontar na direção de uma compensação a perda da CPMF, o governo disse que a decisão também tem caráter de controle do crédito.
Outra foi justamente no consignado, citado por Meirelles como um ponto a ser atacado em caso de problemas. O governo reduziu o nível de endividamento dos empréstimos com desconto em folha do INSS, cujo limite das parcelas passou de 30% para 20% do benefício mensal.
Segundo o economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Nicola Tingas, ainda não há indícios de problemas. Mas aos poucos, a dúvida sobre um possível crescimento descontrolado do crédito começa a ganhar novos adeptos.
O ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, em entrevista ao Valor no final do ano passado (18 de dezembro) disse que em caso de uma crise maior no resto do mundo, os impactos seriam sentidos também no crédito brasileiro. "Hoje, vemos financiamento de automóvel em 99 meses. Há sinais de que o crédito está crescendo um pouco mais rápido do que a prudência recomendaria. Isso pode se reverter".
Para o professor de Finanças do Ibmec e do LABFIN/FIA, Domingos Rodrigues Pandeló Junior, o sinal está virando do verde para o amarelo no crédito. A concessão de recursos deve continuar em ritmo forte mas o risco dos bancos vai crescer, disse ele.
A principal preocupação do professor Pandeló Junior é com o crescimento do crédito para pessoas físicas, especialmente do consignado. "O consignado pode representar um risco para todo o sistema porque o tomador fica com menos renda e sobra menos dinheiro para pagar outros compromissos", afirmou . O problema fica ainda maior se for um tomador de baixa renda, que não tem excedentes para cortar. (Colaborou Maria Christina Carvalho, de São Paulo)