Título: Companhias avaliam como lucrar na nova fase da mobilidade
Autor: Moreira, Talita
Fonte: Valor Econômico, 12/02/2008, Tecnologia & Telecomunicações, p. B2
É uma pergunta que vale algumas centenas de bilhões de dólares, e não por acaso os principais executivos das indústrias de comunicações e tecnologia estão debruçados sobre ela: quem vai ganhar dinheiro com os novos serviços móveis de conteúdo multimídia, e de que forma?
De operadoras a fabricantes de aparelhos, todos estão pensando em como tirar proveito da crescente demanda por produtos e serviços baseados nas redes sem fio.
Uma pesquisa da consultoria Telco 2.0, divulgada em parceria com a GSM Association (órgão que promove o padrão tecnológico de celulares GSM), estima em US$ 250 bilhões anuais o tamanho desse mercado - no qual o conteúdo é gerado tanto por fornecedores quanto pelos assinantes das operadoras. Esse volume de recursos deverá ser alcançado em dez anos, de acordo com o levantamento.
"A internet móvel será tão desejada como foi a voz 20 anos atrás", afirmou ontem o presidente da Nokia, Olli-Pekka Kallasvuo. Ele participa do Mobile World Congress, maior evento mundial sobre telefonia móvel, que acontece nesta semana em Barcelona.
A companhia finlandesa, maior fabricante mundial de aparelhos de celular, é um exemplo bem ilustrativo de como as coisas estão caminhando no setor. A empresa não quer mais apenas vender terminais. Ela começa também a se embrenhar no terreno dos serviços. Alguns modelos de aparelhos da Nokia terão um sistemas de navegação e localização via GPS (satélite), algo que hoje é oferecido pelas operadoras ou por fornecedores de conteúdo. Ela também anunciou planos de lançar, no segundo trimestre, um portal - o Ovi - em que o usuário poderá acessar seus conteúdos de fotos, vídeos e músicas do computador ou do telefone móvel. Será uma espécie de gerenciador de mídia pessoal.
Segundo o vice-presidente de serviços e software, Niklas Savander, até a metade do ano a Nokia expandirá para outros países europeus sua loja virtual de músicas, hoje disponível apenas no Reino Unido. Com isso, pretende acirrar a competição com a Apple, dona da loja iTunes e do celular iPhone.
Para colocar de pé essa estratégia, a empresa finlandesa aposta no compartilhamento de receitas com as operadoras de telefonia - um modelo até agora inusual entre os fabricantes de aparelhos. "Existe uma quantidade maciça de receitas para dividir", afirmou Savander. "As indústrias estão convergindo e muitas vezes colidindo", acrescentou Kallasvuo.
A divisão de receitas entre operadoras e fornecedores de conteúdos já existe há algum tempo. No entanto, o leque de provedores de serviços interessados em participar desse modelo está aumentando e começa a incluir fabricantes de aparelhos. Nesse caso, o que conta não é a venda dos terminais em si, mas sistemas oferecidos por essas empresas que gerem tráfego de dados para as operadoras.
A Apple fica com uma parte da receita de serviços gerada pelos usuários do iPhone que são clientes da operadora americana AT&T.
Outra companhia interessada nesse movimento é a Microsoft. O modelo de remuneração dos negócios da empresa na área de telefonia móvel está em fase de expansão, disse o vice-presidente sênior da divisão de negócios de comunicações móveis, Pieter Knook. O esquema tradicional, observou o executivo, está baseado no licenciamento dos softwares da empresa para os fabricantes de aparelhos. "Agora estamos começando a coletar receitas de outras fontes", destacou. Entre elas, estão a receita sobre serviços "empacotados" pelas operadoras de celular e o incipiente mercado de publicidade móvel.
Este, por sinal, é um tema importante na agenda das empresas. Um grupo de executivos passou o dia de ontem discutindo as possibilidades e as dificuldades para o uso de publicidade no celular. "Estamos debatendo por que até agora não deu certo e o que pode ser feito", afirmou o diretor de marketing para o segmento premium da Vivo, Roger Solé, que participou do encontro, restrito a convidados. "O modelo de negócios do setor está mudando", ponderou.
Na mesma linha, o presidente da TIM Brasil, Mario Cesar Pereira de Araujo, afirmou que o jeito de se fazer negócios no setor precisa mudar, com a expansão dos fornecedores de conteúdo. "Temos que reinventar o modelo de operação. Se as operadoras continuarem com os mesmos processos, não terão retorno", destacou. A TIM já trabalha no sistema de compartilhamento de receitas com fornecedores no caso de serviços como as mensagens pelo celular.
Os serviços baseados na transmissão de dados ainda representam menos de 10% da receita das operadoras no Brasil. As empresas têm a expectativa de que esse número aumente com a chegada das redes de terceira geração (3G), neste ano.
A repórter viajou a convite da Nokia