Título: Produtividade industrial reduz pressão inflacionária
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Fonte: Valor Econômico, 18/02/2008, Opinião, p. A12
A produtividade do trabalho na indústria aumentou 4,16% em 2007, mostrou reportagem no Valor na semana passada, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É uma boa notícia, porque fica claro que os aumentos salariais concedidos pela indústria não foram feitos com base em reajuste de preços - o que poderia despertar receios inflacionários no Banco Central -, e sim porque as empresas ficaram mais eficientes.
As estatísticas do IBGE registram aumento real de 3,95% na despesa da indústria com folha de salários em 2007. Uma questão legítima é se esse gasto adicional foi bancado com a majoração de preços. Os números do próprio IBGE mostram que não. Os trabalhadores passaram a ganhar mais porque se tornaram mais produtivos. Para cada hora de trabalho, a produção aumentou 4,16%, resultado de uma expansão de 6,02% na produção física e de 1,79% nas horas pagas.
Tudo considerado, temos que, a despeito dos aumentos reais de salário, o custo unitário de produção (CUB) ficou praticamente estável. Teve uma leve oscilação para baixo, de 0,2%.
Existem exceções entre os diversos segmentos da indústria. A produtividade no fabrico de coque, refino de petróleo e combustível exibiu um recuo de 7,92% - avanço de 11,91% nas horas pagas e de 3,05% na produção. Cálculos da consultoria LCA mostram que, nesse segmento, os custos de produção subiram 5,7%.
O diagnóstico dos especialistas é que esse aumento de custos se deve primordialmente à dificuldade da Petrobras em contratar mão-de-obra qualificada, o que leva a pressão nos gastos com salários. É um sinal de que, nesse setor, existem gargalos para o crescimento da produção que podem ensejar aumentos pontuais de preços, em ambiente de demanda aquecida. Mas seria precipitado extrapolar para toda a economia o que acontece no setor de petróleo, que registra anos seguidos de expansão. Embora relevante, a extração mineral só responde por 5% da indústria. No agregado da indústria, não é demais recordar, as estatísticas mostram estabilidade nos custos de produção.
Os dados do IBGE apenas confirmam, de certa forma, leitura já feita pelo BC no seu relatório de inflação de dezembro. Segundo o documento, após aceleração em 2004, quando o país viveu um repique inflacionário, o custo unitário do trabalho na indústria vem se mantendo estável. "Apesar da aceleração recente do PIB, as pressões inflacionárias advindas do mercado de trabalho industrial ainda não emergiram", aponta o BC.
O BC pondera, no mesmo texto, que tais conclusões só se aplicam à indústria - e que, portanto, seria arriscado afirmar que a economia como um todo está imune a pressões de custo advindas de reajustes salariais. O setor industrial, sustenta o BC, está sujeito à disciplina imposta pela concorrência das importações. Esse não seria o caso, por exemplo, dos serviços.
A preocupação com o custo do trabalho nos serviços é legítima, pois sabe-se que, em geral, a produtividade desse setor avança num ritmo mais lento do que na indústria. A taxa de desemprego atinge níveis historicamente baixos e, nesse ambiente, a pressão por reajustes generalizados de salário é maior.
Seria incorreto, de outro lado, fazer uma leitura mecânica dos dados, ignorando que o atual ciclo de investimentos produz mudanças estruturais na economia brasileira poucas vezes vistas na história. Não apenas na indústria, mas também nos serviços.
Os ganhos de produtividade, em geral, são puxados pelos investimentos. Os serviços responderam por 44% dos investimentos estrangeiros diretos ocorridos em 2007 no Brasil, percentual não muito diferente dos 44,8% recebidos pela indústria. Países emergentes, como o Brasil, costumam se beneficiar da transferência de tecnologias desenvolvidas nos países mais ricos. Parece razoável supor que, a exemplo da indústria, o setor de serviços tenha registrado aceleração na produtividade. Tais ganhos teriam permitido que, a despeito da aceleração do crescimento e da demanda mais aquecida, a inflação de serviços tenha recuado de 5,48% para 5,19% entre 2006 e 2007; e para 5,13% no acumulado de doze meses até janeiro.
O possível aumento da produtividade geral da economia é mais um indicador, ao lado da inflação abaixo da esperada em janeiro, que recomenda cautela ao Comitê de Política Monetária do BC, evitando um precipitado aperto nos juros na sua reunião de março.