Título: GP se une a argentinos em oferta pela Esso
Autor: Rocha, Janes
Fonte: Valor Econômico, 15/02/2008, Empresas, p. B7
Os empresários Ernesto Gutiérrez e Eduardo Eurnekian, controladores da empresa que detém a concessão dos principais aeroportos da Argentina, entregaram uma proposta em sociedade com a gestora de fundos de private equity GP Investimentos para adquirir a rede de distribuição da Esso no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai. Gutiérrez confirmou a proposta ao jornal "Clarín" ao sair de uma audiência, na quarta-feira, com a presidenta Cristina Fernández de Kirchner. "Comentamos com a presidenta Cristina Kirchner a oferta que estamos fazendo. Vamos associados ao grupo brasileiro GP Investimentos", afirmou o presidente da Aeropuertos Argentina 2000. Procurada, a GP Investimentos não se manifestou.
Gutiérrez disse que há 25 pessoas trabalhando na proposta há cinco meses. A fase de auditoria dos dados da companhia ("due diligence") começou em outubro e a conclusão do negócio está prevista para os próximos 20 ou 30 dias. Na sociedade com a GP, Eurnekian terá 80% das operações argentinas, chilenas e uruguaias, e o GP ficará com 20%. No Brasil, a relação será invertida: a GP terá 80% e Eurnekian, o restante. Há ainda a possibilidade de que haja um sócio local pelos ativos chilenos. Gutiérrez não comentou valores mas o jornal argentino informa que a proposta seria de US$ 2 bilhões. Procurado pelo Valor, Gutiérrez não foi encontrado ontem. Eurnekian estaria em viagem à Armênia. A proposta dos argentinos e da GP é considerada bastante "agressiva" por fontes no Brasil.
A GP Investimentos entrou em setembro do ano passado no segmento de petróleo ao adquirir, por US$ 1 bilhão, as operações latino-americanas de perfuração de manutenção de poços em terra da americana Pride International. Na época, a aquisição foi alavancada, ou seja, em grande parte paga com empréstimo. Com as recentes turbulências, as aquisições alavancadas estão mais difíceis. Mas a GP tem outras fontes de recursos. Está em pleno processo de aumento de capital, em que deve captar R$ 300 milhões.
A Esso colocou sua rede de distribuição na América Latina à venda no ano passado. Na Argentina são 500 postos e mais a refinaria de Campana, a primeira construída no país há mais de um século. A intenção da companhia é manter na América Latina apenas os ativos de exploração de petróleo e gás.
Conforme antecipou o Valor em janeiro, a empresa já recebeu propostas da Petrobras, do grupo Ultra/Ipiranga, da Shell, da distribuidora AleSat e dos fundos GP Investimentos e Ashmore pelos ativos no Brasil. A oferta da Petrobras teria sido a última a chegar a Esso e também seria agressiva, seguindo determinação da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que é também presidente do conselho de administração da estatal.
Na Argentina, comenta-se que além de Eurnekian/GP e do Ashmore, também a Pampa Holdings, do empresário Marcelo Mindlin, e os empresários Enrique Eskenazi e Carlos Miguens Bemberg teriam apresentado propostas, mas apenas pelos ativos argentinos.
Eskenazi controla o Grupo Petersen, que em dezembro fechou acordo com a espanhola Repsol para comprar 15% das ações da petroleira YPF. Bemberg hoje investe em mineração, após ter vendido o controle da cervejaria Quilmes há três anos para a AmBev.
O principal negócio de Eurnekian e Gutiérrez é a concessão de aeroportos. Se o negócio com a Esso sair, não será a primeira investida deles na área energética. Esta semana, ambos anunciaram a participação de sua holding Corporación América S/A (Casa) na construção da hidrelétrica Coca Codo Sinclair, no Equador, em parceria com a estatal Enarsa e os grupos privados Cartellone e Pescarmona. O projeto é avaliado em US$ 1,6 bilhão. Na visita à presidenta Kirchner, os empresários também comunicaram ter feito uma proposta para construir o Trem Transandino, que fará a conexão ferroviária entre a Argentina e o Chile, capaz de levar 30 milhões de toneladas de carga anualmente para exportação a partir da cidade chilena de Valparaíso. É um megaprojeto, avaliado em US$ 2,8 bilhões, do qual também deve participar a construtora brasileira Camargo Corrêa.
Eurnekian faz parte de um grupo de empresários muito ligados ao casal Néstor e Cristina Kirchner, chamados na Argentina d o que na Argentina chamam de "empresários K". Ele começou no setor têxtil e passou pelo negócio de TV a cabo antes de entrar para a concessão de aeroportos, com a privatização do setor nos anos 90. Hoje, ele é dono de 32 aeroportos no país e também dos terminais aéreos Yerevan, na Armênia, Guayaquil, no Equador, e os aeroportos internacionais de Montevidéu e Punta del Este, no Uruguai. Em meados de janeiro, Eurnekian passou por Brasília para discutir com a estatal Infraero e o Ministério da Defesa uma possível participação na privatização de aeroportos brasileiros, segundo o jornal "Ambito Financiero". (Colaboraram Raquel Balarin, de São Paulo, e Cláudia Schüffner, do Rio)