Título: Varejo espera um 2008 forte, mas vai brigar pela renda do consumidor
Autor: Bouças, Cibelle
Fonte: Valor Econômico, 19/02/2008, Brasil, p. A3

O varejo terá de usar criatividade neste ano para repetir o crescimento de quase 10% obtido no ano passado. O consumidor começa 2008 mais endividado do que em 2007, ano ao longo do qual comprometeu parte de sua renda com a aquisição de carros e imóveis. Além disso, a massa salarial deve crescer menos neste ano, dada a previsão de reajuste menor no salário mínimo. Os bancos, por sua vez, elevaram as taxas de juros à pessoa física em janeiro, e pretendem expandir menos a oferta de crédito, dadas as perspectivas de crescimento mais tímido na economia brasileira e de recessão no mercado americano. Para fazer frente a esse cenário mais apertado, empresas alongam os prazos de venda a prazo e apostam mais no crédito consignado (que tem pagamento descontado em folha).

A rede francesa Carrefour, por exemplo, ampliou o prazo de suas vendas parceladas de 15 para 25 meses. O objetivo, diz Carlos Henrique Bandeira de Mello Júnior, diretor-presidente do Banco Carrefour, é viabilizar as vendas ao novo cenário de orçamento dos clientes. "O mercado tem caminhado para isso. O varejo tenta encaixar a parcela de pagamento dentro do orçamento dos consumidores", afirma Mello. O Banco Carrefour opera uma base de 8 milhões de cartões no país, totalizando uma carteira de crédito de R$ 2 bilhões.

Para Mello, o varejo tem à frente um cenário "antagônico", com aumento de concessões bancárias para aquisição de imóveis e veículos e redução para outras linhas. "O bolo é um só, se a fatia cresce para uma área, diminui outras. A decisão dos bancos acaba limitando a capacidade dos consumidores nas outras linhas de crédito", avalia.

A Lojas Cem, rede de eletrodomésticos e móveis que atua no Sudeste com 165 lojas, aposta no crescimento, mas espera alta de 10%. "Vai ser um desempenho abaixo dos 13,7% do ano passado, mas ainda assim, um bom resultado", afirma Valdemir Colleone, supervisor-geral da rede. Segundo ele, os consumidores que compraram imóveis tendem agora a investir na troca de móveis e eletrodomésticos. Os consumidores, diz ele, estão sabendo controlar melhor seus gastos. "O poder aquisitivo não aumentou tanto a ponto de as pessoas comprarem mais. O alongamento dos prazos é que possibilitou a alta nas vendas", diz.

Do total de vendas das Lojas Cem entre janeiro e fevereiro, 90% foram efetuadas a prazo, sendo sendo 85% em carnê, 14,5% em cartão de crédito e 0,5% com cheque pré-datado. A empresa, segundo ele, também alongou os prazos de pagamento para até 24 meses.

Para Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, o cenário atual merece atenção. A oferta de crédito, segundo ele, tende a crescer 15%, diante de 20% no ano passado, com maior participação dos setores imobiliário e automotivo. O ritmo de alta da renda salarial real tende a ser mais contido - 4,4%, ante 5,6% em 2007 - com uma ressalva: os reajustes devem ser mais generosos para as classes média e alta e mais tímidos para os assalariados. "Para o varejo, o ganho da classe média significa crescimento nas vendas de maior valor agregado, como automóveis, móveis e decoração", afirma.

Na avaliação do economista, a inflação vai pesar mais no bolso das classes de baixa renda, o que pode conter o ímpeto de consumo nos próximos meses. Outro fator é o menor reajuste real do salário mínimo. No ano passado, o reajuste total foi de 8,76%, com quase 5% de ganho real. O percentual total pode ser semelhante (o orçamento ainda está em negociação), mas o percentual real cairá para menos de 4%.

Uma pesquisa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) feita em 43 instituições confirma que os bancos pretendem expandir a oferta de crédito em proporção inferior ao observado no ano passado. As operações de crédito para pessoas físicas devem aumentar 25,6%, ante 33,14% em 2007. O aumento também será mais tímido nas operações com crédito pessoal e para aquisição de veículos.

A Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) também apontou, na semana passada, elevação na taxa média de juros para pessoa física de 0,05 ponto no mês, para 7,23% ao mês (131,1% ao ano). A elevação é explicada em parte pela elevação do IOF nas operações de crédito para compensar o fim da CPMF. Mas também é justificada pelo cenário incerto no mercado internacional.

A Febraban projeta uma taxa de inadimplência de 4,66% no ano, ante 4,71% em 2007. Já o Serasa prevê um aumento da inadimplência de 3,5% neste ano, diante de 1,7% de aumento no ano passado. Em janeiro, segundo a instituição, o nível de inadimplência aumentou 6,9% em comparação com igual mês de 2007 no país. Dados do Banco Central apontam, para São Paulo, taxa líquida de inadimplência de 5,4% no varejo no mês passado, menor que os 5,6% de janeiro de 2007. Essa conta considera os pagamentos atrasados em relação ao total de novos crediários.

Carlos Henrique de Almeida, assessor econômico do Serasa, diz que o nível de atrasos aumentou sobretudo nos bancos - em parte como efeito da massificação de programas de crédito como antecipação do 13º salário e do Imposto de Renda. As pendências com bancos representam 36,2% da inadimplência total, seguida por financeiras (31%) e cheques devolvidos (24%). "Os bancos hoje respondem por 42,6% dos casos de inadimplência. Em 2003, respondiam por 27,8%", observa Almeida.

Mello, do Banco Carrefour, também acredita em um risco maior de inadimplência neste ano. "O mercado ficará mais restritivo em função do maior comprometimento da renda dos consumidores."

A Associação Comercial do Estado de São Paulo (ACSP), alertou ontem para a necessidade de cautela na concessão de crédito. Na primeira quinzena de fevereiro, os registros de dívidas aumentaram 14,7% e os registros cancelados tiveram incremento de 12,6%. "Houve um pequeno aumento, mas até agora a situação está sob controle", afirma Marcel Solimeo, economista da ACSP. Segundo ele, apenas em março ou abril será possível perceber se o forte crescimento do varejo verificado em dezembro provocará aumentos significativos nas taxas de inadimplência. "Enquanto a renda, o emprego e o crédito crescerem, há espaço para a expansão do varejo", avalia. A entidade prevê para o ano crescimento de 6% a 7% nas vendas do varejo paulista, seguindo o mesmo ritmo verificado no ano passado.

A Associação dos Lojistas de Shoppings (Alshop) também trabalha com previsão de aumento nas vendas entre 5% e 7% neste ano, conforme Luiz Augusto Ildefonso da Silva, diretor de relações com o mercado. "O crescimento do varejo segue a expansão das indústrias. E há um cenário positivo em termos de aumentos de massa salarial e nível de emprego", afirma.

A Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP), por sua vez, se mantém mais cautelosa nas projeções. A entidade projeta expansão de 2,3% nas vendas do varejo paulista, ante 4,5% registrados no ano passado. O crescimento será sustentado, mais uma vez, pelos setores de eletrodomésticos (4%), veículos (6%) e materiais de construção (4%).