Título: Petróleo ignora juros nos EUA e mantém viés de baixa
Autor: Capela, Maurício
Fonte: Valor Econômico, 23/01/2008, Empresas, p. B8
O temor de uma recessão nos Estados Unidos não atingiu só as bolsas de valores do mundo. A cada vez mais provável freada da maior economia do planeta também pegou em cheio o mercado global de petróleo.
Depois de flertar com a cotação de US$ 100 no dia 2 de janeiro deste ano, o barril de petróleo passou a registrar perdas diárias e fechou abaixo dos US$ 90 ontem. Só para se ter uma idéia do tamanho da redução, entre 31 de dezembro de 2007 e ontem, o produto do tipo WTI negociado na Bolsa Mercantil de Nova York caiu US$ 6,13.
"Estamos assistindo a um desarme de posições que alguns fundos de investimento mantinham e mantêm nas commodities, em especial no petróleo", afirma o economista Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE). "É uma tentativa de cobrir algumas perdas registradas por alguns fundos no mercado americano de hipotecas", declara Lucas Brendler, analista de Investimentos da Geração Futuro Corretora.
Michael Lynch, presidente da americana Strategic Energy & Economic Research, avalia que não há refúgio para que os investidores façam suas aplicações. "O mercado de energia parece mais saudável, quando comparado ao setor imobiliário, ações e dólar", diz Lynch.
Ontem o comportamento do petróleo manteve-se no mesmo ritmo de queda verificada nos últimos dias. Em Nova York, a commodity para março deste ano foi negociada a US$ 89,85, queda de 72 centavos de dólar. Já na Bolsa Internacional do Petróleo de Londres, o produto do tipo Brent voltou a subir após sucessivas quedas e alcançou US$ 88,45, alta de 94 centavos de dólar.
Em 2007, o petróleo em Nova York saiu de uma cotação média de US$ 62,09 para US$ 91,74 no último mês do ano passado. Já o tipo Brent saltou de US$ 62,29 como valor médio para US$ 91,44 em dezembro passado.
Analistas também enfatizaram que nem mesmo o corte de 0,75% na taxa de juros dos Estados Unidos foi suficiente para afastar o temor de uma recessão, o que manteve a tendência de desarme de posições no setor de petróleo. "O corte nos deu algum suporte, mas não foi suficiente para reverter o curso no mercado de energia", diz Eric Wittenauer, analista da A.G. Edwards & Sons.
No Brasil, o sobe-e-desce no setor de petróleo não provocará reflexo imediato. Isso porque desde 2003 a Petrobras tem adotado uma política de não-reajuste nos preços de alguns derivados, como óleo diesel e gás de cozinha. Mesmo quando o petróleo estava em patamares próximo dos US$ 100, a estatal nunca fez um movimento de alinhamento de cotações, porque mantinha um sistema de compensação apoiado na cotação do dólar, que nos últimos tempos tem se mantido abaixo de R$ 1,80. Sendo assim, somente uma combinação entre preço do petróleo em alta e câmbio valorizado poderia modificar a relação da Petrobras com o diesel, o gás de cozinha e a gasolina.
Diante deste cenário, Brendler avalia que poderá haver algum reajuste no segundo semestre deste ano. "É algo que alcançaria até 5% no preço destes derivados", avalia. Para o analista da Geração Futuro Corretora, o barril de petróleo terá um preço médio de US$ 80 neste ano.
Opinião diferente tem Adriano Pires. Para o economista, o preço médio da commodity em 2008 não ultrapassará os US$ 74. "Uma possível recessão nos Estados Unidos mexerá com o mundo todo e muito provavelmente diminuirá a demanda por petróleo", afirma Pires.
De olho na crise dos Estados Unidos está a Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep), que se reúne no início de fevereiro para discutir a relação entre oferta e demanda. Ninguém, contudo, aposta que a entidade promoverá algum corte de produção. Com cerca de 26% da oferta global em suas mãos, a Opep deverá mesmo é manter o atual nível de extração diária. A reunião ocorre dia 1º de fevereiro.
Agora, caso a Opep confirme a aposta mais provável, o mundo terá neste início de 2008 que conviver com uma relação apertada entre oferta e demanda. Calcula-se que neste ano essa equação alcance os 86 milhões de barris por dia, sendo que em 2007 ficou pouco acima dos 85 milhões de barris por dia. (com agências internacionais)