Título: Eleições americanas ainda estão longe da definição
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Fonte: Valor Econômico, 11/02/2008, Opinião, p. A8

Depois de os republicanos votarem em 21 Estados e os democratas em 22, o futuro das eleições americanas continua indefinido. John McCain venceu as primárias da "superterça", arrastando os maiores Estados, mas sua dianteira não foi tão convincente quanto se previa, embora o suficiente para afastar da disputa, por desistência, seu maior rival, o empresário Mitt Romney, e sagrá-lo virtualmente como candidato republicano. Hillary Clinton e Barack Obama estão empatados nas preferências dos democratas e, por mais complexa que seja a escolha dos delegados, as pesquisas indicam, quando um ou outro está na dianteira, margens desprezíveis de vantagem. Foram as maiores primárias até hoje e, seja qual for o futuro, há muito tempo os EUA não viam uma eleição como essa.

Os EUA racharam ao meio quando levaram George Walker Bush à Casa Branca em 2000 - uma vitória republicana sacramentada pela derrota no voto popular e por suspeita decisão judicial. O governo Bush foi um desastre e as chances de os democratas quebrarem um predomínio republicano que vem desde Ronald Reagan, nos anos 80 - com o interregno de Bill Clinton - cresceram. Uma vitória democrata era dada como certa até que John McCain, senador pelo Arizona, batido nas primárias de 2000 por Bush e a caminho da lona, ressuscitar como candidato de um até então improvável centro republicano.

O mesmo movimento que impulsionou McCain empurrou para a frente do pódio o novato Barack Obama, que seria considerado em outros tempos um "azarão" na corrida presidencial. Um dos fatos marcantes da atual eleição é a forte emergência das forças independentes nas primárias. Dos três candidatos que irão brigar nas convenções, a verdadeira candidata da máquina partidária é Hillary Clinton, que, justificadamente ou não, atrai contra si a ojeriza de boa parte dos eleitores pela politicagem de sempre "de Washington".

Se os ventos da renovação continuarem soprando com força, as chances de Hillary vencer a indicação democrata diminuem. Já diminuíram de fato: era franca favorita, hoje luta para se distanciar de Obama. Os resultados da "superterça" - uma competição em larga escala onde o peso da máquina partidária é bem maior - podem ter lhe dado no máximo uma vantagem de menos de cem delegados, por qualquer das pesquisas disponíveis. As projeções sobre o desfecho das próximas primárias indicam que possivelmente também não serão decisivas para um ou outro candidato. Um cenário provável é o de que a definição estará nas mãos da burocracia partidária, que detém 790 superdelegados na convenção de agosto e que tende a ser conservadora, favorecendo Hillary Clinton.

As eleições presidenciais americanas sempre terminam com uma corrida em direção ao centro e é perto dele que McCain está. As bases do partido despejaram o voto útil em McCain, se opondo à direita religiosa e aos neoconservadores, já que se existe uma chance de bater os democratas é cerrar fileiras em torno dele. Somados, Romney e Mike Huckabee, o ex-governador evangélico de Arkansas, obtiveram pouco mais de 40% dos delegados em Estados tradicionalmente conservadores, o que dá uma idéia da forte rejeição interna a McCain. Tudo depende agora do que ele fará para remendar a união dos republicanos. Suas opiniões firmes indicam que não alienará os independentes, mas se cativar com concessões o voto ultra-conservador decepcionará justamente as forças que lhe permitiram chegar aonde está.

Por outro lado, pesquisas indicam que McCain tem mais chances de ir à Casa Branca se a concorrente for Hillary, que padece de uma rejeição de cerca de 40% do eleitorado. No quesito experiência, que tem propagado em sua campanha contra Obama, Hillary perde para McCain e não leva vantagem sobre seu opositor democrata. Experiência de governo, de fato, quem tem é seu marido, Bill.

Uma disputa que começou com grandes surpresas pode terminar da mesma forma. A desaceleração econômica ainda não entrou na campanha e, quando entrar, pode prejudicar McCain, que confessa que economia não é seu forte. Épocas de crise tendem a favorecer os democratas, cuja campanha, com dois fortes contendores, empolga o partido e pode acabar com a onda neoconservadora que varreu o país.