Título: Sucesso da campanha de Obama intriga analistas
Autor: Balthazar , Ricardo
Fonte: Valor Econômico, 25/02/2008, Internacional, p. A11

Obama em Ohio; sucesso intriga analistas experientes: "A campanha é um cruzamento de política com religião e entretenimento", disse o historiador Sean Wilentz O senador Barack Obama foi atacado com grande agressividade nos últimos dias por seus adversários na corrida presidencial americana. Sua rival na batalha pela liderança do Partido Democrata, a ex-primeira-dama Hillary Clinton, disse aos eleitores que eles precisam "cair na real" e acusou o adversário de copiar seus planos de governo e plagiar discursos de um aliado.

O senador John McCain, que já eliminou meia dúzia de oponentes no Partido Republicano e está ansioso para começar a bater nos democratas, chamou Obama de "ingênuo" e disse que seus discursos são "eloquentes" mas "vazios". Críticos passaram a pôr defeito nas propostas de Obama, apontando pequenos detalhes como evidências do seu despreparo para liderar os EUA.

É tudo parte do jogo. O aumento da intensidade dos ataques contra Obama era esperado desde que ele passou na frente de Hillary na corrida à Casa Branca. Mas a capacidade de resistência que ele vem exibindo está surpreendendo seus adversários. Obama continua arrastando multidões para seus comícios e seu apoio está aumentando. Nenhum ataque desferido contra ele parece funcionar.

Nas últimas semanas, Obama acumulou dez vitórias consecutivas nos Estados que foram às urnas para participar do processo de seleção dos candidatos que representarão os dois grandes partidos americanos na eleição de novembro. As pesquisas indicam que Obama está ganhando votos em segmentos do eleitorado que até outro dia pareciam fiéis a Hillary e indiferentes ao fascínio que ele exerce.

Os dois terão um embate potencialmente decisivo na próxima semana, quando os eleitores irão votar em dois Estados grandes onde Hillary ainda está na frente, Ohio e Texas. Até seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, reconheceu que ela terá que voltar para casa se perder na semana que vem. As pesquisas mais recentes mostram que a vantagem de Hillary sobre Obama encolheu nos últimos dias.

O sucesso de Obama intriga observadores experientes tanto quanto seus rivais. "Sua campanha é quase um movimento religioso, um cruzamento de política com religião e entretenimento que capturou o coração das pessoas", disse ao Valor o historiador Sean Wilentz, professor da Universidade Princeton e amigo do casal Clinton. "Nunca vi coisa parecida antes."

Obama alcançou uma identificação tão profunda com os desejos do eleitorado que parece ter se tornado praticamente imune aos ataques dos adversários. "Os eleitores estão ansiosos por mudanças e nenhum candidato respondeu a essa insatisfação de forma tão convincente", disse ao Valor o consultor político Dan Gerstein, que trabalha com os democratas há muitos anos mas não se envolveu com nenhuma campanha desta vez.

Depois de sete anos governados pelo presidente George Bush e pelos republicanos, os americanos estão fartos dos políticos. Bush está chegando ao fim do segundo mandato com a aprovação de menos de um terço do eleitorado. O apreço pelo Congresso, onde os democratas passaram a dar as cartas no ano passado, é tão baixo quanto os índices de popularidade de Bush.

Pesquisas feitas com eleitores que participaram das prévias partidárias realizadas até agora revelam que a capacidade de promover mudanças é um atributo mais importante para os democratas do que a experiência dos candidatos. Mais da metade dos eleitores que já votaram pensavam assim quando foram às urnas, e mais de dois terços dessas pessoas preferiram Obama, segundo as pesquisas.

Parte da explicação está na biografia dos candidatos. A eleição de uma mulher como presidente do país mais poderoso do mundo seria um fato tão extraordinário quanto a eleição de um negro como Obama. Mas Hillary e o marido ocuparam a Casa Branca por oito anos e é impossível dissociá-los das batalhas partidárias que consumiram Washington nos últimos anos, um dos motivos para o atual cansaço do eleitorado.

Obama é diferente. Há apenas três anos no Senado, ele é um recém-chegado em Washington. Aos 46 anos, ele é jovem demais para ter participado dos movimentos que ajudaram a definir a cultura política americana nas últimas décadas. Na época em que Hillary ia a passeatas contra a guerra do Vietnã e os negros marchavam contra a segregação racial nos Estados do sul do país, Obama era apenas uma criança.

Isso tornou mais convincente as promessas de mudança que Obama tem feito. "Não há mudança mais genuína do que aquela provocada por uma troca de gerações e é isso que estamos assistindo", disse ao Valor David Bositis, pesquisador do Centro Conjunto para Estudos Políticos e Econômicos, uma instituição especializada em pesquisas sobre política e questões raciais.

Nenhum outro candidato explorou tão bem o entusiasmo dos jovens nesta eleição. Usando técnicas sofisticadas para entrar em contato com as vastas redes de relacionamento estabelecidas por seus simpatizantes na internet, a campanha de Obama recrutou milhares de voluntários e arrecadou milhões de dólares em contribuições financeiras de pequeno valor individual.

Os jovens também têm comparecido em massa às urnas. Em Iowa, o Estado onde a maratona eleitoral começou em janeiro, 57% dos eleitores que participaram das prévias partidárias estavam fazendo isso pela primeira vez, conforme as pesquisas de boca-de-urna. Na Virgínia, onde Obama alcançou uma vitória arrasadora há duas semanas, 37% dos eleitores que foram votar nunca haviam feito isso antes.

O apoio dos jovens também tem ajudado Obama a vencer uma barreira que parecia mais ameaçadora no início da campanha, o preconceito racial. As pesquisas indicam que as novas gerações são mais tolerantes do que as anteriores. "Para muitos jovens, o fato de Obama ser negro é até mesmo uma vantagem", diz o consultor Gerstein.

Ao contrário de outros políticos negros que disputaram a Presidência dos EUA no passado, como o pastor Jesse Jackson, um veterano da luta contra a segregação racial, Obama nunca se apresenta como o defensor de uma minoria injustiçada. Ele prefere ser visto como um político conciliador capaz de ajudar o país a superar as divisões do passado. Ele raramente fala de questões raciais na campanha.

É possível que as fragilidades da candidatura de Obama se tornem aparentes mais tarde, se ele for confirmado como o candidato dos democratas. Como suas propostas são quase idênticas às de Hillary, muitos ataques que ela vem fazendo não surtem nenhum efeito. "Quando houver um republicano na tribuna ao lado, o debate sobre as idéias de Obama ficará bem mais complicado", diz o professor Wilentz.

É possível também que Obama esteja alimentando no eleitorado expectativas que jamais terá condições de cumprir se for eleito. Mas ninguém se importa muito com isso no atual estágio da campanha. "O risco de gerar frustrações lá na frente existe, mas neste momento o melhor que ele tem a fazer é deixar fluir toda a força do movimento que sustenta sua candidatura", disse ao Valor Ronald Walters, um professor da Universidade de Maryland que chefiou a campanha de Jesse Jackson em 1984.