Título: Londres prevê poucas bolsas locais e quer atrair empresas brasileiras
Autor: Silva Júnior,Altamiro
Fonte: Valor Econômico, 27/02/2008, Finanças, p. C2

Chris Gibson-Smith, presidente da London Stock Exchange (LSE): "Londres é o mercado mais internacional do mundo e permite diversificar fontes de captação" Países com poucas bolsas locais e uma bolsa nacional forte. Este é o cenário mais provável para o mercado de capitais global na visão de Chris Gibson-Smith, presidente da London Stock Exchange (LSE), uma das maiores bolsas de valores do mundo. O executivo passou por São Paulo ontem para apresentar o mercado londrino às companhias brasileiras. Os ingleses querem atrair as empresas daqui.

Gibson-Smith não vê mais a necessidade de várias bolsas locais, competindo entre si. Na semana passada, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e a Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) anunciaram que estão em conversas para uma possível fusão. "Isto é uma coisa natural a fazer", afirmou o executivo inglês ontem ao Valor.

Ele cita o exemplo do Reino Unido. Lá existiam seis bolsas. Com a consolidação do mercado, restou apenas a LSE, a principal do país, e duas bolsas bem pequenas, locais. No Brasil também havia várias bolsas regionais, que se consolidaram todas na Bovespa.

Já a fusão de bolsas entre países diferentes Gibson-Smith acha menos provável e mais complexo. "É mais difícil este tipo de operação por causa de políticas diferentes, diferentes sistemas legais, diferentes regulamentações", afirma. "Mas dentro de um país é bastante sensível." Novamente ele cita um exemplo inglês, a fusão da LSE com a Bolsa da Itália. Foi uma operação complexa que demorou quatro anos para ser concluída e incluiu a exportação do sistema de negociação de Londres para a Itália.

Boa parte do crescimento dos negócios da LSE nos últimos anos tem sido graças às companhias internacionais. No ano passado, foram 269 aberturas de capital (IPO, na sigla em inglês) no mercado principal da bolsa londrina, com volume captado de US$ 52 bilhões. Deste total, US$ 30 bilhões foram de empresas estrangeiras em um total de 95 operações, a maioria de países emergentes, como China, Índia, Rússia e Cazaquistão.

O Brasil, porém, não participa destas estatísticas. A LSE já fez algumas incursões por aqui para atrair as companhias brasileiras, mas sem sucesso. "O Brasil tem sido o grande ausente do mercado londrino. Agora é o momento para corrigir isso", afirma. Ele chegou segunda-feira a São Paulo com visitas programadas a algumas empresas. Depois vai ao Peru.

As empresas brasileiras têm preferido lançar ações aqui, atraindo os investidores estrangeiros para o país. No ano passado, a Bovespa foi uma das bolsas que mais IPOs registrou no mundo. Neste cenário, porque ir a Londres? "Na medida que as companhias crescem e se tornam competidoras globais, precisam diversificar suas fontes de capital, para não dependerem só do mercado local", avalia ele.

Segundo Gibson-Smith, a principal vantagem de estar em Londres, além de ter acesso a novas fontes de captação, é a visibilidade global. "Londres é claramente o mercado mais internacional do mundo", diz ele. As gestoras da cidade têm US$ 4 trilhões em ativos sob gestão, 30% mais que Nova York, e 70% da emissão de bônus é gerida e negociada em Londres. O volume negociado por ano na LSE supera os US$ 12 trilhões.

O executivo aponta ainda que a "City" londrina tem custos mais baixos para listagem que o mercado americano. "É uma forma de apresentar uma fotografia real da empresa para o mundo", disse ontem no discurso de abertura do seminário. Segundo ele, o mercado londrino está aberto a todo tipo de empresa, das menores às maiores, de setores como mineração, petróleo, imobiliário e agrícola. Para as menores, a LSE tem um mercado de acesso, que está sendo exportado para a Bolsa de Tóquio, em uma parceria entre as duas bolsas.

A LSE também tem um acordo estratégico com a Bovespa, fechado em outubro de 2006. Segundo Gibson-Smith a parceria prevê basicamente a busca de negócios em conjunto. Segundo ele, mais que competir com a Bovespa, a LSE quer ser complementar ao que é oferecido no mercado brasileiro.

A última empresa da América Latina a listar os papéis na LSE foi Grupo Clarín, maior companhia de mídia argentina. A oferta foi de US$ 530 milhões, dos quais 70% ficaram com estrangeiros.