Título: BM&F terá acesso a investidores globais
Autor: Silva Junior , Altamiro
Fonte: Valor Econômico, 28/02/2008, Finanças, p. C19

Craig Donohue, presidente do CME Group, e Edemir Pinto, diretor da BM&F, comentam acordo que vai permitir internacionalização da bolsa brasileira O CME Group, dono da maior bolsa de derivativos do mundo, a Chicago Mercantile, chegou ao Brasil de olho no mercado agrícola e nas perspectivas de crescimento econômico. "É um local atrativo para investimento. Queremos participar deste crescimento" afirmou ao Valor Craig Donohue, presidente do grupo.

O grupo americano entrou no país por meio de uma troca de ações com a Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), da ordem de US$ 700 milhões. O CME virou o maior acionista individual da BM&F, com 10% do capital. O acordo também abriu as portas do mundo para a BM&F, com 2,2% do capital do CME, a sétima maior acionista.

A partir do terceiro trimestre, a BM&F terá direito a usar a Globex, a maior plataforma de negociação de derivativos do mundo, criada pela bolsa de Chicago, presente em mais de 80 países, e oferecer seus produtos a investidores estrangeiros. Já os brasileiros terão acesso aos produtos de Chicago, como contratos futuros dos índices das bolsas americanas.

A BM&F saiu do nada, em 1985, e se tornou a quarta maior bolsa de futuros do mundo contando somente com operações no mercado local. Hoje opera com 66 corretoras e 670 terminais. Com a CME terá mais de 100 mil terminais pelo mundo. O presidente do grupo americano conta que essa trajetória exponencial de crescimento foi que despertou o interesse do grupo. Já o diretor da BM&F afirma que a bolsa nasceu inspirada na de Chicago.

O acordo foi comentado ontem em entrevista coletiva na sede da BM&F. Logo após a entrevista, Donohue falou ao Valor. Segundo ele, a CME tem uma dezena de acordos com outras bolsas do mundo mas nada se compara com a estrutura do contrato com a BM&F, que envolveu troca de ações e um acordo comercial de sete anos.

As conversas entre as duas começaram em maio de 2007, mas por conta do processo de abertura de capital da brasileira e da fusão da americana com a Bolsa de Futuros de Chicago (CBOT), as negociações acabaram demorando um pouco mais. Segundo Edemir Pinto, diretor geral da BM&F, foi a bolsa brasileira, em um almoço com Craig Donohue que propôs o negócio, imediatamente aceito pelo CME.

Sobre a possível fusão entre a BM&F e a Bovespa, Donohue afirma ser favorável ao movimento. Segundo ele, o CME não pretende operar com ações. O mercado de derivativos e futuros, diz ele, cresce muito mais rápido que o de ações e deve sentir menos o efeito da crise das hipotecas subprime, por não ter produtos ligados a este tipo de crédito. "O efeito da crise vai acabar sendo positivo para os derivativos."

Já o diretor da BM&F argumenta que se não ocorrer uma integração entre as duas bolsas, pode haver uma competição predatória entre elas. Pelos estatutos das duas instituições, elas podem oferecer qualquer tipo de produto. Nada impede, por exemplo, que a BM&F entre no mercado de ações, nem a Bovespa no de derivativos. Ele avalia que 60 dias é uma prazo mais que suficiente para se chegar a um modelo para esta integração. Em valor de mercado, uma eventual fusão pode criar a quarta maior bolsa do mundo. A CME é a primeira.

Na avaliação de Donohue, o mundo ainda terá várias bolsas. Os países da Ásia ainda estão em estágio anterior, colocando em prática o que países como os Estados Unidos fizeram há anos, alterando suas legislações. Por isso, terão várias bolsas aparecendo ainda por lá. Estas bolsas vão conviver com outras instituições enormes, globais e diversificadas que têm surgido na consolidação em alguns países mais desenvolvidos.

Na coletiva, a BM&F anunciou que encerrou 2007 com lucro líquido de R$ 293,3 milhões, uma alta de 48,7% em relação ao resultado de 2006. A receita operacional líquida avançou 41,8%, indo para R$ 550,6 milhões. Foi o melhor desempenho nos 22 anos da bolsa.