Título: Hillary ganha fôlego após ataques a Obama
Autor: Calmes, Jackie; Cooper, Cristopher
Fonte: Valor Econômico, 06/03/2008, Internacional, p. A13

Depois que a senadora Hillary Clinton recobrou o fôlego para a maratona que vai escolher o candidato do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos, ela e o senador Barack Obama passaram a se mobilizar para mais três extenuantes meses de disputa nos Estados. Publicamente, eles aceleraram os ataques um contra o outro, enquanto que, nos bastidores, eles se preparam para uma briga acirrada por causa das regras do partido e vêm intensificando a concorrência pelo apoio dos líderes democratas - os superdelegados -, que podem acabar decidindo quem será o indicado democrata.

É certo que a disputa deve continuar pelo menos até a próxima primária importante, em 22 de abril, na Pensilvânia, o que deixa os líderes democratas cada vez mais temerosos de que a campanha vai drenar o dinheiro e a união necessários para a reconquista da Casa Branca em novembro e deixará o indicado com a imagem chamuscada por ataques que os republicanos também podem aproveitar.

Em contraste com a desordem democrata, o republicano John McCain selou anteontem sua indicação e está livre para se mobilizar e levantar recursos para a eleição presidencial de fato. Mas o senador do Arizona ainda tem muito trabalho a fazer para unir seu partido, que está desmoralizado. O almoço de ontem na Casa Branca, com o presidente americano George W. Bush, foi um passo nessa direção.

Uma lição que as campanhas dos dois partidos aprenderam com o ressurgimento de Hillary, após suas vitórias em Ohio e no Texas, foi que os ataques de última hora contra Obama ajudaram a virar o rumo das primárias. Por isso, ambos os lados passaram o dia seguinte às primárias questionando quem está mais pronto para assumir a Casa Branca.

Numa série de aparições em programas matinais de TV, Hillary alegou ter mais experiência com segurança nacional por ter participado do Comitê do Senado para as Forças Armadas e por seu papel, durante o governo do marido, Bill Clinton (1993-2001), em questões como Irlanda do Norte, Kosovo e direitos da mulher na China. À parte, seus assessores reiteraram questionamentos sobre a ligação entre Obama e um investidor imobiliário que está sendo julgado por acusações de corrupção; Obama não está envolvido no caso.

De sua parte, Obama indicou a repórteres no avião de sua campanha que usará um tom novo, mais agressivo, ao afirmar que "umas das coisas que eu espero que as pessoas comecem a perguntar é qual exatamente é essa experiência internacional que ela diz ter? Eu sei que ela fala que visitou 80 países. Não está claro - ela estava negociando acordos e tratados, ou estava resolvendo crises internacionais durante aquele período? Para mim, a resposta é não".

Os estrategistas da campanha de Obama voltaram a desafiar Hillary a divulgar as declarações de renda dela e do marido Bill, além dos registros de seus anos na Casa Branca como primeira-dama e uma lista de quem doou para uma biblioteca de seu marido.

A proximidade entre os dois candidatos pode ser percebida no voto popular das 44 primárias realizadas desde a primeira em Iowa, em 4 de janeiro. Como observou ontem Mark Penn, estrategista de Hillary, houve cerca de 26 milhões de votos nas primárias, uma participação que quebrou os recordes em todos os Estados. Desse total, Obama obteve apenas 30.000 votos a mais que Hillary - apesar de o total dela ter sido impulsionado por uma vitória sem concorrência no Estado de Michigan, onde Obama nem estava na cédula, por causa de uma disputa entre o Partido Democrata nacional e seus representantes em Michigan.

Para vencer a indicação democrata na convenção do partido em Denver, no fim de agosto, são os delegados que realmente contam. Mas também aí o partido continua bastante dividido depois da vitória de Hillary anteontem. E, apesar de toda a comemoração de suas vitórias nessas primárias, ela na prática dividiu com Obama os 370 delegados que estavam em disputa, e ficou praticamente na mesma situação em relação a Obama, que ainda está cerca de 100 delegados à frente na briga pelos mais de 4 mil delegados.

Com a candidatura de Hillary revigorada, também ressurgiu a polêmica dúvida sobre a validade ou não dos delegados em Michigan, bem como na Flórida.

Os dois partidos puniram esses Estados por realizarem as suas primárias em janeiro, antes do prazo permitido; os democratas foram os que reagiram mais fortemente, anulando os delegados desses Estados e proibindo os candidatos de fazerem campanha neles. Em Michigan, só o nome de Clinton e de outro candidato menos importante é que estavam na cédula. Mas Hillary venceu nos dois Estados, e passou a insistir que os 366 delegados participem da convenção.

Ontem, a governadora democrata Jennifer Granholm, de Michigan, e o governador republicano Charlie Crist, da Flórida, divulgaram uma carta conjunta em que pedem que os líderes estaduais e nacionais dos partidos resolvam a questão para que os 5 milhões que votaram tenham alguma voz no processo.

Ativistas democratas e até alguns partidários de Hillary dizem que mudar as regras para Flórida e Michigan depois que eles mesmos as violaram - e, desse modo, efetivamente entregar a indicação a Hillary - iria rasgar o partido. Os líderes dos partidos temem que os democratas negros, os eleitores mais fiéis do partido, iriam ficar especialmente furiosos se o primeiro candidato afro-americano viável à presidência for derrotado desse modo.

"Seria uma luta absolutamente gigantesca que espirraria não apenas para o salão da convenção, mas para as ruas de Denver", disse o veterano estrategista democrata Tad Devine, que não está comprometido com nenhum candidato.