Título: Construção de plataforma gera conflito na Petrobras
Autor: Góes, Francisco
Fonte: Valor Econômico, 06/03/2008, Empresas, p. B7
O projeto de construção da plataforma P-62, que exigirá investimentos de mais de US$ 1 bilhão, está causando polêmica dentro e fora da Petrobras. A estatal vinha trabalhando para fazer a P-62 como um clone do navio-plataforma P-54, mas mudou de idéia e analisa abrir licitação para empresas estrangeiras que constroem e afretam as unidades à Petrobras. Modelo semelhante foi seguido pela companhia no caso da P-57, ganha pela Single Buoy Mooring (SBM), com sede em Mônaco.
A construção da P-62, destinada ao módulo quatro do campo de Roncador, na bacia de Campos, foi tratada entre executivos da estatal e sindicalistas ontem em reunião na sede da Petrobras. A discussão sobre a melhor forma de contratação da plataforma estaria colocando duas áreas em lados opostos: o setor de engenharia e a área de exploração e produção (E&P) da Petrobras, dizem fontes da indústria.
O E&P teria decidido licitar a plataforma às empresas afretadoras já que nesta modalidade o custo da unidade cairia em cerca de US$ 200 milhões, de US$ 1,4 bilhão para US$ 1,2 bilhão. A decisão seria contrária à posição da área de engenharia da empresa, que defende a construção da P-62 como um clone da P-54, dizem as fontes. A instalação e integração dos módulos da P-54 foram realizadas em Niterói (RJ), na parceria desfeita entre o estaleiro Mauá e a Jurong Shipyard, de Cingapura. A P-54, com capacidade de produzir 180 mil barris/dia de petróleo, está instalada no campo de Roncador.
Um executivo do setor disse que as empresas que afretam plataformas devem ser chamadas a disputar a construção da P-62 sem possuírem acordos prévios com os estaleiros nacionais. No futuro estas empresas podem alegar problemas para executar parte dos serviços no Brasil e contratá-los no exterior com redução das encomendas junto à indústria nacional.
A Petrobras foi procurada pelo Valor para falar sobre o assunto mas não se posicionou. O clone da P-54 era conhecido inicialmente como P-61. Mas, segundo as fontes, a Petrobras teria decidido renomear o clone como P-62 e destinar a P-61 para um navio-plataforma no campo de Papa-Terra, na bacia de Campos. A construção da plataforma seria delegada ao segundo colocado na licitação da P-57, a empresa BW, da Noruega.
Uma fonte da indústria disse que o projeto de engenharia para fazer o clone da P-54 no estaleiro Mauá está pronto e que a Petrobras tem um navio disponível para fazer a conversão. Nestas condições a obra poderia começar em breve e ser concluída em 36 meses. Já a licitação da P-62 exigiria outro projeto de engenharia e poderia levar até oito meses para ser concluída.
Outra das preocupações é a redução na contratação de mão-de-obra. José de Oliveira Mascarenhas, presidente do sindicato dos metalúrgicos de Niterói, Itaboraí e Região, previu que a mudança na forma de contratar a P-62 levaria 5 mil trabalhadores ao desemprego pois a licitação não garante que as obras da plataforma fiquem na área de influência da entidade.
No mercado, a estimativa é de que 3 mil empregados de estaleiros do Rio possam perder o emprego temporariamente para serem recontratados mais adiante. "Sabemos que em futura licitação ( P-62) podemos perder a plataforma para Rio Grande do Sul, Pernambuco e Espírito Santo", disse. Mascarenhas afirmou que a P-57 pode ser erguida no Espírito Santo.
No mercado comenta-se que a empresa Dynamic, ligada ao grupo Keppel Fels, de Cingapura, estaria disposta a se instalar no Espírito Santo para fazer parte dos módulos da P-57. As instalações capixabas da Dynamic também poderiam servir para fazer parte dos módulos da P-62 caso a SBM venha a ganhar a licitação e feche acordo com a Keppel Fels, disseram as fontes. No contrato da P-57, de US$ 1,19 bilhão, está prevista a construção de módulos e a integração da plataforma no estaleiro Brasfels, da Keppel Fels, em Angra dos Reis (RJ). Um executivo disse que a decisão de licitar a P-62 foi incentivada pela SBM que tem um casco de navio disponível para a conversão. Marcelo Faerman, representante comercial da SBM no país, disse desconhecer o assunto.