Título: Lula quer conter Chávez e facilitar acerto entre Colômbia e Equador
Autor: Daniel Rittner ,
Fonte: Valor Econômico, 05/03/2008, Internacional, p. A14

Ao mesmo tempo em que reforça seu apoio "jurídico" ao Equador pela invasão de suas terras, Luiz Inácio Lula da Silva deve pedir reservadamente ao presidente equatoriano, Rafael Correa, que mantenha distanciamento dos guerrilheiros colombianos das Farc, como forma de não agravar a tensão na América do Sul. Correa chegaria ontem à noite a Brasília, em viagem a seis países latino-americanos, e se reuniria com Lula.

"Quando fatos como esse acontecem, são sempre de difícil solução porque ninguém quer voltar atrás naquilo que fez", disse Lula após um evento em Campinas. O presidente defendeu uma investigação no âmbito da OEA (Organização dos Estados Americanos). "Vamos querer uma investigação da OEA para saber o que efetivamente aconteceu. O dado concreto é que a Colômbia violou a soberania territorial do Equador. Esse dado concreto é admitido pelo próprio presidente Uribe", disse Lula.

Sem posicionar-se publicamente, a diplomacia brasileira condenou declarações do presidente dos EUA, George Bush, em defesa do colombiano Álvaro Uribe. Para o Itamaraty, as afirmações de Bush "não são construtivas" e prejudicam as tentativas de pacificação. Do mesmo modo foram entendidos, pelo Brasil, outros dois episódios: as denúncias da Colômbia contra o presidente da Venezuela, Hugo Chávez (leia texto abaixo), e a retórica agressiva de Chávez num assunto que seria "bilateral", restrito a Colômbia e Equador.

O governo brasileiro pretende colocar-se como um contraponto à atitude de Chávez e atuar como "facilitador do diálogo". Por isso, a estratégia é não credenciar o líder venezuelano como um interlocutor constante nesse processo. O Itamaraty irritou-se com a intervenção de Chávez. Acredita que, inclusive, o Equador estava inclinado a aceitar as desculpas de Uribe e só endureceu após o anúncio da Venezuela de que estava mobilizando tropas.

Nos bastidores, procura-se uma forma de "acalmar" Chávez. A diplomacia espera (embora ainda não tenha informação oficial) que a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, faça isso na conversa que terá com Chávez hoje, em Caracas - visita agendada antes do início da crise.

Para o Itamaraty, a ofensiva de Uribe contra a guerrilha tem sido pautada pela política interna, pela tentativa de ganhar o apoio da sociedade civil para um eventual terceiro mandato. Eleito em 2002, ele já mudou a Constituição para permitir a reeleição e há um movimento inicial em curso para mais um mandato. Uribe é aprovado por cerca de 70% da população.

A diplomacia brasileira acha que, se Uribe oferecer um pedido de desculpas "sem condicionantes" ao Equador, terá um trunfo em mãos: poderá depois exigir explicações sobre as denúncias de que Chávez estaria financiando as Farc e sobre reuniões de ministros equatorianos com guerrilheiros.

O Itamaraty não aceita argumentos da Colômbia que podem servir de "circunstâncias atenuantes" à violação da soberania do Equador. A Colômbia diz que só invadiu o país vizinho por estar em busca do que considera um grupo terrorista. Mas o Brasil vê a possibilidade de que essa ressalva se volte contra o próprio país no futuro. No limite até o desmatamento pode servir de "circunstância atenuante" para ações de países ricos na região, compara um diplomata.