Título: Fiat colhe no Brasil frutos de sinergias
Autor: Olmos , Marli
Fonte: Valor Econômico, 11/03/2008, Empresas, p. B10

Marisa Cauduro/Valor Belini: "As empresas do grupo são tratadas de forma independente, mas dividem a transferência tecnológica" Uma mudança de gestão há exatos três anos mudou os rumos da Fiat na Itália e conduziu a principal filial, no Brasil, a uma trajetória de crescimento que ainda está longe do fim. O investimento de R$ 6 bilhões que o grupo programou para o país até 2010 começa a parecer pouco diante de planos extras que devem ser anunciados nos próximos dias.

A virada na maneira de conduzir os negócios de uma empresa com a saúde financeira comprometida na Itália foi anunciada em fevereiro de 2005. Sergio Marchionne, executivo até então pouco conhecido, decidiu acumular a presidência do grupo e da divisão de automóveis, a principal da companhia. Pediu que Cledorvino Belini, na época presidente da divisão de automóveis da filial do Brasil, fizesse o mesmo.

A centralizará das ações que visava principalmente reduzir os custos de uma estrutura inchada na Itália trouxe mais competitividade e sinergia entre as empresas da companhia. Na Itália e ainda mais no Brasil.

É verdade que a maior parte da receita do grupo Fiat no Brasil vem dos automóveis. Essa atividade responde por 65% da receita de US$ 14,5 bilhões no ano passado. Mas Fiat não é só carro. Os programas de investimento em ampliações industriais mostram que os italianos estão de olho não apenas no aquecido mercado de veículos de passeio como também nas oportunidades que o crescimento econômico oferece em áreas como máquinas para construção e colheitadeiras em pleno vigor dos negócios com cana-de-açúcar.

A participação do Brasil na receita mundial do grupo têm crescido. Saiu de uma média de 15% para 18% em 2007, um ano em que a subsidiária brasileira registrou um salto de faturamento de US$ 8,5 bilhões para US$ 14,5 bilhões.

A companhia fundada pela família Agnelli em 1899 aproveita a recuperação da saúde financeira na matriz e o crescimento de demanda na América do Sul para despejar mais recursos no Brasil. E, mais do que nunca, confere a cada executivo no comando das empresas que compõem o grupo no país liberdade para pensar em novas oportunidades de negócios, que se traduzem em ampliações industriais.

A fábrica de automóveis se transformou em um verdadeiro canteiro de obras, com diversas empreiteiras trabalhando hoje em Betim. Mas, como de costume, a Fiat faz uma reforma aproveitando a estrutura que já tem. A tática é desocupar áreas que antes serviam como armazéns para dar espaço a novas linhas de produção. Aliada à "mineirização" - apelido do sistema que aproximou os fornecedores - essa reforma interna permite à Fiat fazer 14 diferentes tipos de carros em quatro linhas.

No mesmo prédio erguido em 1976 com a produção de 300 veículos por dia hoje são feitos 3 mil. O plano, a partir do último cronograma de investimentos é passar da produção anual de 706 mil veículos no ano passado para 850 mil. Com mais 150 mil previstos para a fábrica da Argentina, a marca que tem hoje 25% do mercado brasileiro chegará à produção de 1 milhão de veículos.

Fora dos automóveis, um dos maiores destaques na Fiat hoje é a FTP - sigla de Fiat Powertrain, a empresa que fabrica motores e transmissões. Até hoje essa divisão se dedicava a suprir as linhas da própria Fiat. Mas agora o objetivo é conquistar novos clientes. Não apenas de veículos. A empresa se prepara para começar a produzir motores para geradores de energia a diesel na fábrica de Sete Lagoas (MG).

Ainda em relação aos motores, a Fiat é a principal candidata à compra da Tritec, uma fábrica do Paraná, que surgiu de uma antiga fusão entre BMW e Chrysler.

Outra empresa do grupo que se prepara para ficar maior é a CNH, que produz máquinas para construção e agricultura. Já está nos planos de investimento da CNH a reativação de uma fábrica em Sorocaba (SP), desativada desde 2000. Mas a fábrica de Contagem (MG), a mais antiga da companhia, ficou apertada e hoje está cercada por moradias.

O presidente da CNH, Valentino Rizzioli, foi encarregado de buscar soluções para fazer a produção de Contagem crescer. Essa fábrica marca a chegada da Fiat no Brasil, em 1970. É anterior à unidade de carros. E foi o próprio Rizzioli quem comprou o terreno para construir ali uma fábrica de tratores. Foi o primeiro compromisso selado com o governo de Minas Gerais, que na época havia comprado um grande lote de tratores.

A CNH já recebeu US$ 250 milhões como parte do pacote de investimentos previstos até 2010. O dinheiro pode cobrir parte do aumento de capacidade por meio da compra de máquinas modernas. Mas a empresa está estudando mais um projeto, cujos detalhes não estão sendo revelados, para elevar ainda mais a capacidade de produção de máquinas em Contagem. A decisão será em menos de dois meses.

Os executivos que comandam as fábricas do grupo Fiat têm mais dificuldades do que a maioria dos que ocupam cargos semelhantes quando têm de convencer o presidente da companhia, Cledorvino Belini, sobre a necessidade de novos investimentos. Belini conhece bem todas as empresas do grupo. Já trabalhou em várias delas. E em mais de uma função.

Comandou a Magneti Mareli, fabricante de autopeças do grupo, e diz conhecer o tipo de cada trator pelo ronco do motor. Na época em que trabalhou na fábrica de tratores controlava pessoalmente os 25 componentes que, segundo ele, compõem cada um desses veículos. "E sem laptop", brinca.

A já conhecida flexibilidade da companhia italiana ajuda na tomada das decisões. Belini admite hoje que acumular as funções no comando do grupo e da divisão de automóveis facilitou ainda mais. "O maior ganho foi na rapidez das decisões, no aumento da sinergia e na transferência de tecnologia", afirma.