Título: BC investiga evolução dos núcleos do IPCA
Autor: Ribeiro , Alex
Fonte: Valor Econômico, 12/03/2008, Brasil, p. A4
A inflação medida pelo IPCA ficou em 0,49% em fevereiro, segundo dados divulgados ontem pelo IBGE, desacelerando-se em relação ao 0,54% observado em janeiro. Para o Banco Central, porém, tão ou mais importante do que a inflação cheia é acompanhar a evolução dos núcleos de inflação, um indicador que mostra se está se agravando o desequilíbrio entre a demanda e a oferta agregadas na economia.
O BC só divulga nos próximos dias o cálculo oficial dos núcleos de inflação. Analistas do mercado financeiro, porém, já fizeram as suas estimativas. Os números podem ser vistos de duas perspectivas diferentes. Na mais otimista, houve desaceleração dos núcleos do IPCA no mês de fevereiro, comparados com os núcleos de janeiro. Os mais pessimistas notam que os núcleos acumulados em 12 meses pioraram em fevereiro.
O BC vem alertando que, ao contrário do que afirmam parte dos analistas econômicos, a aceleração da inflação ocorrida desde fins de 2007 não se deve unicamente a choques de oferta. Não se trata, insiste a autoridade monetária, apenas de aumentos pontuais de preços, como alimentos. A aceleração da inflação não é explosiva, tanto que as suas próprias projeções estão dentro das metas, mas a alta dos preços também reflete o maior aquecimento da demanda interna.
Um dos indicadores mais importantes do grau de aquecimento da demanda são os núcleos de inflação. O BC vem estimulando os analistas econômicos a fazerem uma análise disciplinada desse indicador - ou seja, o exame dos núcleos puros, sem fazer exclusões além daquelas já previstas nas metodologias consagradas de cálculo.
Nas estimativas do BC, a média dos "núcleos" saiu do patamar de 2,93% nos 12 meses encerrados em abril de 2007 para 3,93% em período semelhante terminado em janeiro passado. O percentual continua menor do que as metas de inflação de 2008 e 2009, fixadas em 4,5%. Mas há uma tendência de aceleração.
Em fevereiro, não houve mudança substancial nos núcleos: a tendência de aceleração se manteve, mas ainda não é possível afirmar que a trajetória é explosiva. A consultoria Rosenberg & Associados calcula que o chamado núcleo de inflação por exclusão aumentou de 4,05% para 4,22% entre janeiro e fevereiro, no resultado acumulado em 12 meses. O núcleo com médias aparadas sem suavização subiu de 3,68% para 3,84%. O núcleo de médias aparadas com suavização foi de 4,02% para 4,05%.
Os números diferem um pouco dependendo de quem faz o cálculo, mas a direção é a mesma. A Concórdia Corretora, por exemplo, calcula uma aceleração de 4,1% para 4,28% no núcleo por exclusão; de 4,02% para 4,05% no núcleo de médias aparadas com suavização; e de 3,68% para 3,82% no núcleo de médias aparadas sem suavização.
O economista Luiz Fernando Azevedo, da Rosenberg, afirma que a aceleração do núcleo acumulado em 12 meses é preocupante, porque indica alguma pressão inflacionária de demanda. Mas ele pondera que, comparando apenas os dados mensais de janeiro e de fevereiro, houve uma melhora. O índice de médias aparadas com suavização recuou de 0,37% para 0,27%, e o mesmo indicador sem suavização caiu de 0,41% para 0,36%. "É um alívio, porque a dinâmica do núcleo de janeiro levava para uma situação de pânico", afirma Azevedo. "O BC pode esperar um pouco mais antes de decidir pela alta de juros."
"Melhorou um pouco entre janeiro e fevereiro", concorda o economista Elson Teles, da Concórdia. "Mas essa aceleração do núcleo acumulado em 12 meses ainda preocupa. Se continuar assim, chegamos em 4,5%."
Um outro indicador da demanda doméstica que os economistas do mercado estão acompanhando de perto são os preços dos serviços. O Unibanco calculou uma inflação de 0,55% nos serviços em fevereiro, numa metodologia que exclui os reajustes das mensalidades escolares, que sazonalmente ocorrem no início do ano. Por esse critério, a inflação de serviços de fevereiro é idêntica aos 0,55% observados em janeiro e bem abaixo dos 0,74% ocorridos em dezembro. Mas está acima da média entre 0,40% e 0,45% ocorrida na maioria dos meses de 2007.
"Existe inflação de demanda e o BC precisa se manter cauteloso", afirma o economista Adriano Lopes, do Unibanco. "Mas não é um cenário iminente de aceleração inflacionária."
O IPCA cheio de fevereiro, em 0,49%, superou levemente a expectativa mediana do mercado, que era de 0,48%. O principal item que puxou a inflação foi educação, com um avanço de 3,47% e uma contribuição de 0,24 ponto percentual (pp.) no índice. O grupo alimentação e bebidas, que havia subido 1,52% em janeiro, desacelerou-se para 0,6%, com contribuição de 0,13 pp. para o índice. Nos percentuais acumulados em 12 meses, a inflação sobe de 4,56% para 4,61% entre janeiro e fevereiro.