Título: Rosário vence prévia contra cúpula gaúcha do PT
Autor: Bueno, Sérgio
Fonte: Valor Econômico, 18/03/2008, Política, p. A8

Maria do Rosário: vitória por 56 votos num universo de 4,4 mil filiados reforça candidatura numa disputa que reunirá mais duas mulheres contra Fogaça Não adiantou o apoio de estrelas do partido como os ministros Tarso Genro, da Justiça, e Dilma Rousseff, da Casa Civil, o ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, e o deputado estadual Raul Pont. Por uma diferença de 56 votos em um universo de quase 4,4 mil filiados que compareceram às urnas, o ex-ministro do Desenvolvimento Agrário Miguel Rossetto foi derrotado pela deputada federal Maria do Rosário nas prévias que definiram o nome do PT para disputar a Prefeitura de Porto Alegre em outubro.

Depois da votação, partidários dos dois pré-candidatos afirmaram que o partido estará unido na campanha, mas o resultado apertado sinaliza o desafio que Maria do Rosário enfrentará para transformar em realidade as declarações amistosas das correntes internas. "Vou precisar de todo mundo do PT", afirmou ontem a deputada, que focou a campanha em um intenso corpo-a-corpo e no "diálogo" direto com os filiados e que desde as primeiras pesquisas de intenção de voto para a eleição de outubro apresentou desempenhos bem superiores aos do adversário.

Pela manhã, Genro e Dilma foram alguns dos primeiros que telefonaram para cumprimentar a vencedora das prévias, assim como a candidata do PCdoB, a deputada federal Manuela D'Ávila, que vai concorrer com o apoio do PSB e é objeto do desejo do PT para a reedição da Frente Popular que governou a cidade de 1989 a 2004. Mesmo assim, o clima de "ressaca" pela derrota da véspera era evidente entre os militantes e dirigentes petistas que apoiaram Rossetto.

"Eu achava que o Rossetto era melhor para o partido, para unir o campo de esquerda, e o desenrolar dos acontecimentos vai mostrar quem tinha razão", disse ontem pela manhã, em um programa de rádio, o deputado Raul Pont, que assim como o ex-ministro faz parte da corrente Democracia Socialista (DS). Mesmo assim, ele garantiu que a partir de agora "todas as pessoas que fizeram campanha para o Miguel (Rossetto) estão engajadas e comprometidas com a campanha de Maria do Rosário".

A frustração tem um componente nacional. Com Rossetto, o grupo Mensagem ao Partido (que inclui DS, Esquerda Democrática e PT Amplo), organizado por Genro, pretendia impor uma derrota aos integrantes da chapa Construindo um Novo Brasil, que em 2007 conquistou a presidência nacional do partido com o deputado federal Ricardo Berzoini (SP) e agora apoiou a deputada junto com a Articulação de Esquerda e o Movimento PT. A expectativa do ex-ministro era tão grande que no ano passado ele recusou um convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para reassumir o ministério e se dedicou integralmente à campanha.

Agora, além de garantir a unidade interna, Maria do Rosário terá que costurar alianças com outros partidos num cenário já de escassas alternativas. Nos próximos dias ela pretende conversar com o PDT, a quem poderá oferecer o cargo de vice-prefeito, para reforçar a candidatura e tentar ir ao segundo turno, quando buscará novamente atrair o PCdoB e o PSB. Na última pesquisa de intenção de voto, realizada este mês pelo instituto Vox Populi, a deputada alcança índices de 16% a 20%, conforme o cenário apresentado, atrás apenas do atual prefeito, José Fogaça (PMDB), que oscila de 27% a 30%.

Para o professor André Marenco, do curso de pós-graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a vantagem em relação a Miguel Rossetto nas pesquisas (no levantamento do Vox Populi a diferença variou de seis a oito pontos) contou a favor de Maria do Rosário nas prévias. O mais importante, porém, acredita, foi a maior eficiência das correntes que a apoiaram na mobilização dos filiados.

Na opinião de Marenco, além de unir o próprio partido, a deputada terá ainda pela frente um cenário novo de divisão dos votos da esquerda com o PSOL e o PCdoB, que apresentam boas chances de disputar uma vaga no segundo turno, e precisará reconquistar o voto da classe média, que em 2004 foi a responsável pela derrota do partido na cidade. Para isto, entende o professor, o partido terá que superar o que ele considerou um "vazio de um programa" do PT para o desenvolvimento e o futuro de Porto Alegre na última eleição municipal.