Título: Corrida para consolidar ativos bate recorde
Autor: Durão , Vera Saavedra
Fonte: Valor Econômico, 18/03/2008, Empresas, p. B12
O ano de 2008 pode inaugurar a era das superconsolidações no mercado de fusões e aquisições do setor de mineração, conforme cenário desenhado pela PricewaterhouseCoopers, em relatório sobre as operações do setor em 2007, obtido com exclusividade pelo Valor. No ano passado, o valor das fusões e aquisições atingiram US$ 158,9 bilhões, aumento de 18% ante 2006, um recorde. O ambiente é de "devore ou seja devorado", afirmou Tim Goldsmith, líder global de mineração da consultoria. A expectativa da Price é que 2008, que já começou superaquecido, suplante a performance de 2007. Só a oferta da BHP pela Rio Tinto é de US$ 150 bilhões e a da Vale do Rio Doce pela Xstrata, de US$ 90 bilhões. "As duas megaoperações juntas perfazem US$ 240 bilhões, superando 2007", avalia Ronaldo Valiño, sócio e líder de mineração e siderurgia da Price no Brasil.
Para Golsmith, os negócios da mineração envolvem empresas de todos os tamanhos e origens e podem atingir este ano recordes astronômicos, nunca antes alcançados. "Nenhuma mineradora pode ficar de fora desta corrida", destacou. Na sua avaliação, as empresas do setor precisam dar um passo à frente e olhar para trás. "As grandes companhias estão se posicionando para atingir escala global de superconsolidadas", disse. Segundo ele, as gigantes do setor - BHP, Vale, Rio Tinto e Anglo American - estão enfrentando concorrência cada vez maior de empresas emergentes da China, India e Rússia. "O que deve mudar o cenário do setor de forma drástica".
O relatório da Price mostra que há poucas evidências de uma possível queda de negócios de mineração em função da crise americana e da redução do crédito no mercado financeiro global. Segundo Valiño, a Price fez tal diagnóstico apoiada no fato de que as empresas estão com o caixa cheio devido à alta dos preços dos minérios e commodities metálicas e, estão ancoradas na aquecida demanda chinesa. "A BHP e a Vale não tiveram dificuldades em levantar crédito para adquirir Rio Tinto e Xstrata". Em relação ao caixa, ele considera que elas têm dois movimentos a fazer: ou investem para ampliar capacidade ou partem para aquisições. Como o investimento em projetos orgânicos é de longa maturação e estão muito caros, as mineradoras preferem comprar empresas porque sai mais barato que investir. "As grandes companhias estão fazendo as duas coisas", informou, lembrando que só a Vale tem um programa de investimentos de US$ 59 bilhões até 2012.
Valiño disse que é difícil saber a duração deste segundo "boom" dos negócios de mineração. "O primeiro foi puxado pela recuperação do Japão e dos tigres asiáticos e durou 20 anos, dos anos 60 aos 80. O atual é puxado pela China e pela Índia, países que respondem por 40% da população mundial. Estamos com oito anos de crescimento, desde 2000. Acredito que ainda vamos ter mais duas décadas fortes e 2008 promete ser um marco". A Price prevê que as maiores ofertas de consolidação a partir deste ano vão ser de médias e pequenas empresas do setor, porque as grandes estão se consolidando. Como é o caso da BHP e Rio Tinto e a Vale e Xstrata. Ele destacou que as as siderúrgicas serão também atores neste movimento de superconsolidação. "Elas estão de olho no espólio destas grandes aquisições, porque estão buscando se verticalizar por conta do alto preço dos insumos. Se a BHP comprar a Rio Tinto, certamente as agências regulatórias vão exigir que ela venda ativos, o mesmo devendo ocorrer com Vale e Xstrata. Neste caso, as siderúrgicas estão "de olho" para se candidatar a compra destes ativos.
O relatório da Price revela que o maior alvo das fusões e aquisições em 2007 foi a América do Norte, totalizando comprar de US$ 77,1 bilhões. O número de operações nesta região do globo mais do que dobrou, saltando de 310 em 2006 para 695, revelando a disputa envolvendo grande número de pequenas transações. Dentre as 10 maiores fusões e aquisições de 2007, quatro foram no Canadá e nos Estados Unidos. A maior delas, a compra da Alcan pela Rio Tinto, no valor de US$ 42,9 bilhões, foi no Canadá.
Na Ásia Oriental, que inclui a Austrália, os números de negócios também foram significativos. O valor total de operações subiu de US$ 11,2 bilhões em 2006 para US$ 35,3 bilhões em 2007. A região respondeu por sete negócios acima de US$ 1 bilhão, sendo três na lista das dez mais. A Xstrata comprou a australiana de níquel Jubilee Mines por US$ 2,9 bilhões e a Sinosteel adquiriu por US$ 1,1 bilhão a mineradora Midwest Corporation, que também tem ativos de aço.
África e América do Sul também tiveram crescimento nos negócios de consolidação do setor. O valor das aquisições de empresas africanas somou US$ 13,5 bilhões, 38% a mais, e na América do Sul, US$ 8,7 bilhões.